Mãe e príncipe jogam. Ambos ganham

Ela e o filho brincavam de adivinhar o desenho um do outro, como uma espécie mais rudimentar de Imagem&Ação, um dos jogos de tabuleiro que marcaram a infância da mãe, além do Banco Imobiliário e Detetive. A brincadeira é simples: bastam uma folha de rascunho e um lápis. Cada hora um dos participantes é encarregado de traçar o esboço de um objeto. O adversário deve ser capaz de decifrar o significado da gravura. Caso consiga, leva um ponto. Em seguida, é a vez de o outro se arriscar.

De primeira, o garoto de seis anos fabricou uma estrela de cinco pontas, aliás com uma facilidade incrível. A mãe ficou boquiaberta, não apenas por ser coruja, mas também porque ela nunca aprendera a desenhar uma estrela com perfeição. As pontas saíam sempre tortas ou enviesadas, voltadas para lados opostos, um pouco mais à direita ou à esquerda do que deveriam (à época, sem qualquer ato consciente de inclinação política por certa estrela vermelha, que nos últimos tempos, anda mais queimada que um cometa).

Vendo a reação da mulher, que não se cansava de expressar admiração por algo tão rudimentar, a criança se apressou a revelar o segredo. Não tem erro, mamãe! Basta traçar duas linhas retas, imitando a pauta de um caderno. Em seguida, você deve desenhar a estrela entre elas, usando as paralelas como base. Viu como é fácil? Ela experimentou a técnica e conseguiu, aos 45 anos, rascunhar uma estrela minimamente inteligível. A dica do pequeno funcionou.

Era a vez de ela produzir um dibujo, como se diz em espanhol. E agora? Sem maiores inspirações, ela observou ao redor o que havia na casa. Ela se orgulhava de ser eficiente em reproduzir imagens, mas não em imaginar criações. Estava sob pressão, não apenas pelo desafio imposto pelo papel em branco, de um vazio infinito, quanto pelo olhar ansioso do filho, que exigia agilidade. A primeira ideia que brotou foi a de copiar o aparelho do telefone celular, que se tornou um apêndice moderno, sempre posicionado perto do corpo. Mas ela a descartou em seguida, por parecer óbvia demais.

Vamos, mamãe! Vale desenhar qualquer coisa! – lembrou o menino, incomodado, batendo com o lápis na mesa: toc, toc, toc! Era preciso reagir. Sem ter onde amarrar o bote salva-vidas, a mãe partiu para imitar o aparelho de tevê, cujos sons de desenhos animados ecoavam da outra sala, entretendo o filho mais velho, que costuma preferir a tela do computador. Ela finalmente começou a esboçar um quadrado, no lugar da tela, mas interrompeu os rabiscos no momento de arquitetar a parte de trás do equipamento. Manifestou insegurança quanto à possibilidade de o menino reconhecer o desenho de uma televisão de antigamente, com sua extensão parecendo uma caixa preta.

Na dúvida, preferiu montar logo uma tela plana, daquelas bem finas, ultracontemporâneas. Com isso, evitaria também levar uma gozação do filho, que iria considerá-la ultrapassada. Enquanto o pequeno tentava desvendar o enigma, tendo até três chances para acertar na mosca, ela se perdeu em meio às elucubrações. Lembrou-se de como as referências vão mudando com o tempo: ninguém mais desenha sorvete na casquinha e o telefone deixou de ter gancho. Nem se pode mais pronunciar a palavra ‘discar’, já que foi abolido o disco onde se giravam os números.

Ela então começou a se culpar por não ter buscado elementos da natureza para distrair o filho. Poderia ter criado uma borboleta amarela e preta, como no poema Isto ou aquilo, da Cecília Meireles, ou senão, uma árvore frondosa, com direito a maçãs dependuradas na copa. Ela nunca entendeu por que as crianças insistem em fazer macieiras no Brasil, terra da bananeira, da mangueira e do abacateiro.

Depois de acertar o aparelho de televisão na quarta chance (ela desenha muito mal), ganhando mais um ponto, o príncipe disse à mãe que havia aprendido um jeito novo de desenhar uma árvore. No entanto, já tinha dado a hora de dormir e o segredo ficou para ser revelado na noite seguinte, como um conto das Mil e uma noites.

Sandra Kiefer

Sandra Kiefer

Jornalista

9 comentários em “Mãe e príncipe jogam. Ambos ganham

  • 31 de agosto de 2017 em 23:01
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    muito bonita a história e o texto, Sandra. Parabéns!!!

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  • 1 de setembro de 2017 em 00:52
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    Lindo conto, Sandrinha!!
    Fiquei o tempo todo te imaginando nele.
    Parabéns!

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  • 1 de setembro de 2017 em 08:42
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    Parabéns pela crônica! No mínimo encantadora, original e muito realista! Passa uma emoção deliciosa ! Amei !😍

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  • 1 de setembro de 2017 em 18:49
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    Ah Kiefer, você poderia ter desenhado o telefone de disco. Parabéns pela crônica, sensível como você. Bjos

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  • 1 de setembro de 2017 em 18:51
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    Ah Kiefer, você poderia ter desenhado o telefone de disco. Parabéns pela crônica, sensível como você. Bjos

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  • 21 de setembro de 2017 em 11:39
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    Sabia que esse foi o método usado por John Lennon para compor alguns de seus sucessos. Seu filho Julian, por exemplo, deu o ponta-pé para Lucy (sua amiguinha de escola) in the sky, assim retratada em um desenho com lápis de cera. Beijo.

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