Magno e Beto, uma autêntica dupla dinâmica

Nessa última noite de domingo, aconteceu um evento muito interessante no Café com Letras Savassi. Estou falando do show do Magno Alexandre e Beto Lopes, um duo de violão sete cordas e guitarra muito impactante. Nessa apresentação, os dois músicos uniram seus estilos, relativamente próximos um do outro, apresentando ao público ali presente um repertório variado, que abordou do choro ao jazz, reinterpretado com um toque de “estilo mineiro”, mas focando-se nas obras do Clube da Esquina. Sempre usufruindo das peculiaridades pessoais para enriquecer as músicas tocadas.

O concerto foi aberto com uma versão muito bem feita da música “Vento Bravo”, de Edu Lobo. Desde então, já se conseguia vislumbrar que a noitada seria altamente agradável. E de fato as impressões do início do show apenas se confirmaram com o tempo! Cada música era diferente da anterior e ao mesmo tempo completamente diferente da versão original da mesma. Percebia-se uma grande paixão dos dois músicos, expressa ora em seus olhares, ora nas risadas ou nos esplêndidos solos.

A junção do som suave da guitarra semiacústica com o buliçoso baixo do violão sete cordas criou uma situação que literalmente induziu o ouvinte a bater o pé. Pode parecer difícil pensar em bater o pé ouvindo um duo de guitarras, tocando bossa nova. Mas creia-me, caro leitor, isso ocorreu sem dificuldade nenhuma no domingo passado.

Enquanto Magno se soltava em solos repletos de escalas e arpejos, quase aéreos, Beto o acompanhava meticulosamente com lindas frases nas cordas baixas do instrumento e com acordes mais que harmoniosos. E quando um acabava seu solo, o outro já estava claramente pronto para começar o seu. Com certeza isso é fruto de numerosos ensaios e de uma complexa programação de cada música. Logicamente com o intuito de agradar ao máximo o público tão amado.

O repertório, como já dito, teve como carro-chefe as músicas do Clube da Esquina. Talvez porque Beto Lopes seja um músico que acompanha os membros do “Clube” há anos. Mas houve também outros estilos. Eles tocaram “Doce de Coco”, um clássico do chorinho, numa interpretação, no mínimo, emocionante. “Body na Soul”, cavalo de batalha do mítico Coleman Hawkins também foi tocada. Essa música, entre outras, teve uma linda intervenção do gaitista Gabriel Grossi, que adicionou à dupla um incrível toque de melancolia, o qual combinou perfeitamente com a obra.

Mas o ponto culminante da apresentação, na minha opinião, foi a interpretação de “All the Things You Are”, de Jerome Kern. Nessa música, o magno deu o melhor de si. Alternando riffs com acordes e escalas de todos os tipos, ele conseguiu, como um bom “jazzista” faria, transformar uma boa música numa obra de arte. Claro que não tiro o mérito do Beto Lopes. Sem seu lindo trabalho, a peça não seria nem de longe parecida com o que ela se tornou. Mas nesse caso, o Magno foi mais impactante. O mesmo foi feito, de certa forma, na execução de “Das Alagoas”, composição do próprio Magno, no seu primeiro CD, no segundo bloco do show.

Por fim, a saideira foi o clássico “Travessia” de Milton Nascimento, que comoveu a todos, estimulando palmas abundantes e merecidas na plateia.

Um show, de qualidade, é antes de tudo e principalmente oriundo dos músicos. Mas o local onde ele é exibido também ajuda. E muito! O Café com Letras Savassi, apesar do relativo barulho e do espaço reduzido, ainda é, ao meu ver, um dos melhores locais para a shows ao vivo. Principalmente em se tratando de música instrumental. Naturalmente há controvérsias. Mas pense bem: é um local aconchegante, onde a pessoa que vai assistir ao concerto acaba, mesmo que inconscientemente, imergindo num “mundo cultural”. Livros, música de alto nível, tudo colabora à criação desse ambiente peculiar e agradável. Sem comentar do fato de poder pensar que enquanto você assiste ao seu show, tomando um suco, pode-se apreciar de perto a rotina frenética de um café. Isso é algo muito interessante!

O Café com Letras é um. Mas como ele, existem dezenas espalhados por Belo Horizonte. Locais talvez não tão famosos, mas tão válidos quanto o Café com Letras. O ponto é descobri-los.

Logo, meu prezado leitor, eu termino meu texto sugerindo que no próximo fim de semana, ou quando puder, você saia de casa e redescubra esta grande cidade, que mais se parece com uma caixa de surpresas. Não tenha medo de conhecer novas coisas. O máximo que pode ocorrer é você não gostar e ter uma experiência construtiva. De qualquer forma, se sai ganhando. Então ouse, abra seu paladar cultural para o novo e aproveite para tomar, talvez, um ou dois chopes enquanto isso. Mas, se for beber, pegue um táxi.

Luiz Felipe Radic

Luiz Felipe Radic

Estudante, 16 anos, aluno do Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte

3 comentários em “Magno e Beto, uma autêntica dupla dinâmica

  • 8 de fevereiro de 2017 em 22:01
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    Luiz Felipe, parabéns pelo texto! Obrigada pelo carinho e ótima análise musical da noite.

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  • 8 de fevereiro de 2017 em 22:03
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    Fico feliz em ter a oportunidade de me apresentar com um músico admirável como o Beto Lopes, e mais ainda de ter um jovem tão talentoso e promissor na platéia.

    Obrigado Luiz Felipe!!

    Abraço do
    Magno Alexandre

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  • 9 de fevereiro de 2017 em 14:55
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    Ai que vontade de ter ido lá! Seu artigo, além de super bem escrito e agradável de se ler, cumpriu o objetivo de criar no leitor a vontade de fazer parte do público desse show e do Café com Letras. Parabéns, Luiz Felipe!

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