Médicos de ontem, médicos de hoje

Andaram dizendo por aí que bons profissionais eram os de “antigamente”. Citaram alguns médicos dedicados, responsáveis e muito humanos. “Esses sim, atuavam de forma exemplar”, afirmaram. Continuaram comentando que os novos profissionais “deixam muito a desejar…”.

Hoje, na sala de aula, observo os meus alunos durante a avaliação da disciplina. Viajo em minhas reflexões e me pergunto: “Será que é isso mesmo?”. Olho de forma discreta para cada um deles. Eu os conheço, sei das suas potencialidades, da seriedade com que discutem os assuntos propostos e da dedicação aos estudos.

Repasso os momentos de convivência com os médicos dos serviços públicos e privados de saúde, e me vêm inúmeros exemplos de profissionais que, não obstante as dificuldades de infraestrutura, financiamento e gerência, entregam-se de forma apaixonada ao exercício da medicina.

Concordo que nossa história é ilustrada por grandes e inesquecíveis médicos. Muitos deles são nossas referências. Entretanto, não podemos deixar de admitir que temos, nos dias de hoje, ótimos profissionais e há uma geração de alunos que traz grandes esperanças. A visão saudosista, que não enxerga – ou não verbaliza publicamente – os excelentes profissionais da atualidade, pode refletir a dificuldade de apreciar boas atitudes e condutas do presente.

Os tempos são outros. Os avanços tecnológicos e as metodologias de ensino-aprendizagem são conquistas que devem ser reconhecidas, valorizadas e discutidas amplamente sobre a sua utilização e limites.

Não obstante alguns equívocos na prática de alguns profissionais – fato observado em todas as épocas e nas diferentes categorias –, precisamos abrir os olhos para enxergar quanta coisa boa está acontecendo. Cabe destacar que a formação profissional implica em compromisso pessoal, institucional e responsabilidade dos governos e da sociedade civil. E o alvo da atenção deverá ser sempre o ser humano.

Sei que cada época tem as suas características e os seus desafios. Um olhar atento perceberá as belezas que existem neste momento de nossa história. O desafio que a medicina leva sempre consigo, em qualquer época e contexto, é o de conciliar os avanços científicos com as motivações iniciais preconizadas por Hipócrates (pai da medicina ocidental) de estar ao lado daquele que sofre, de valorizar, respeitar e de dedicar-se ao cuidado às pessoas e aos novos princípios/perspectivas fortalecidos a partir de Potter, tais como a autonomia, a justiça, a responsabilidade.

Em outras palavras, a questão que é colocada à medicina nos dias de hoje é a mesma de vários períodos da história: valorizar a competência técnica e não perder o foco da ética e da humanização na atenção ao ser humano.

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

2 comentários em “Médicos de ontem, médicos de hoje

  • 16 de fevereiro de 2017 em 20:31
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    Ótimo texto Tidinho. Acho que bons profissionais independem de época, pois o tempo pode alterar a sociedade, mas, por maiores e melhores que sejam as mudancas e tecnologias envolvidas, o ser humano será sempre mantido em sua essência – humana. Logo, para comparar o novo com o velho deve-se levar em conta as peculiaridades de ontem e de hoje; se o médico de antes tinha condições de ser mais atencioso, em razão de ter menos demanda que o médico de hoje, por outro lado não tinha ferramentas tecnológicas que atualmente salvam vidas. Portanto, tudo é relativo. O mais importante, creio eu, é que os profissionais mantenham-se estudiosos, dedicados e pautem-se sempre na ética. Se serão melhores ou piores, isso dependerá de cada um, jamais do momento histórico em que vivem.
    Grande abraço.

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  • 17 de fevereiro de 2017 em 08:46
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    Novas tecnologias e novos olhares devem ser acompanhados e entendidos como bons avanços na medicina. O que não significa perder o olhar humanitario e ético diante o Paciente. E sim saber lidar com novos paradigmas. Muito bom texto Dr Tides.

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