Mineirismo que se esvai

Se você é mineiro, certamente já degustou um chup-chup de seu sabor favorito, brincou no passeio enquanto ouvia os berros de preocupação de sua mãe e, quando adulto, fez as compras da semana no sacolão. Mas se por acidente você nasceu brasiliense, pode ter comprado dim dim, brincado com os vizinhos embaixo do bloco (porque calçada quase não há, e passeio muito menos) e pesquisado um verdurão mais em conta. Na minha constante conexão BH-Brasília, volta e meia descubro novos regionalismos que se contrapõem à minha raiz. Porque se Brasília sintetiza um país sonhado por JK, com seus vícios e virtudes, posso garantir: BH é o suprassumo do que Minas projeta para o mundo.

Atrás do condomínio onde vivo, na capital federal, uma singela placa “Vende-se Din-Din” resiste às transformações da quadra (Brasília tem a lógica da quadra, algo incompreensível para quem habita as alterosas) e figura incólume à verticalização da cidades-satélites próximas ao Plano Piloto – para explicar, uso uma analogia: é como se fosse aquele espaço planejado dentro da Avenida do Contorno, só que sessenta anos mais moderno. Quem não teve o engenheiro positivista Aarão Reis, caça como o urbanista comunista Lúcio Costa…

Das coisas de que mais sinto falta vivendo aqui no Planalto: o grito prolongado seguido pela indefectível flauta do amolador de facas, sons que desafiam as alturas, as paredes, as lajes, o concreto; e a buzina singular do vendedor de biju e algodão doce. Sons que me remetem à Idade Média… Cá nas terras acima da cota mil de altitude, há somente o vendedor de pamonha, nosso primo distante lá do bucólico Goiás, que, de tempos em tempos, nos dá o ar da graça com seu velho caminhão e a voz grave no megafone a anunciar suas ofertas absolutamente imperdíveis.

Se a urbanidade traz por um lado o progresso e a verve clean dos projetos arquitetônicos modernos e arrojados, por outro lado ajuda a solapar – aqui e aí – um pouco da nossa velha roça iluminada e as figuras que ficam no tempo e por ele são suplantadas.  Personalidades desimportantes, porém conhecidas, se diluem na impessoalidade do varejo das redes de hipermercados e dos shopping centers. Onde estão o seu Fulano dos aviamentos e a dona Sicrana costureira? Só vejo empregados que se alternam nas caixas registradoras a manusear sem qualquer paixão as mercadorias marcadas com códigos de barras. O freguês virou cliente, e o cliente é só mais um cliente.

Ainda mais triste é ver o regionalismo morrer na padronização das corporações. O aperto de mãos e o sorriso franco estão dando lugar ao solene “bom dia/boa tarde/boa noite”; “crédito ou débito?”; “Vai querer CPF na nota fiscal?”. A identidade se tornou um número. Sua reputação se traduz no saldo em conta bancária, no limite do cartão de crédito e no CPF sem restrições junto à Serasa. Não falo em personalismo, falo em pessoas e na relação delas com um mundo cada vez mais eletrônico, automatizado e impessoal. Enfim, bebemos um leite cada vez mais distante daquilo que sai das tetas da vaca.

Breno Lobato

Breno Lobato

Jornalista

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