Natal dos felizes

Nossa infância feliz no interior de Minas era feita de coisas simples. Naquelas distantes décadas de 70 e 80, até mesmo a fartura do Natal não exigia muito do orçamento doméstico. Sonhávamos acordados antes e depois de abrir os presentes na manhã do dia 25 de dezembro e ainda reservávamos tempo para louvar o mais ilustre aniversariante da data.

Na sala de estar de minha casa, uma bela árvore emergia de um cacto-candelabro coberto de arranjos natalinos. A decoração era completada por toalhas de mesa vermelhas e por tocos de madeira do cerrado, que minha mãe enfeitava divinamente. Era época de brindar a vida com Sidra Cereser, o espumante de maçã sorvido como champanhe.

Desfilavam pela ceia da véspera e pelo almoço da data comemorativa ao início da era cristã pratos como salpicão de frango, lagarto recheado com cenoura e pernil assado com abacaxi. De sobremesa, torta de amendoim gelada feita com bolachas. Outras opções eram amor em pedaços, queijão e doce de figo. Tudo regado a Coca-Cola, Fanta e Guaraná Antarctica Baré.

Antes do banquete da mais luminosa noite do calendário, todos nós rezávamos diante do presépio, louvando a imagem em gesso do menino Deus. Ao final das orações, cada um beijava o pezinho dele. Naquela maquete, era chique usar espelhinho de bolso para mimetizar água e botar palha no telhado do estábulo e na manjedoura tomada por berço.

Sobre um móvel vizinho dali ficavam elegantes cartões postais com votos de Boas Festas enviados por amigos e familiares de vários lugares. Quem queria ir à Missa do Galo, tomava rumo da igreja pouco antes do fim da comilança. Os que ficavam assistiam à celebração do Papa na tevê, com tradução simultânea. Telefonemas de felicitações também ocorriam.

Eu e meus dois irmãos curtíamos os entes queridos ali reunidos até sermos derrotados pelo sono, na luta para flagrar a invasão de Papai Noel. Acreditávamos piamente. Meu pai nos dizia que, como não havia chaminé em nosso lar, o bom velhinho entraria pelo longo e estreito basculante da porta principal. Nós o imaginávamos bem gordo. Mas também flexível.

A manhã do dia seguinte era aquela algazarra das crianças abrindo embrulhos debaixo da árvore de Natal. Com as novidades em punho, marchávamos para a pracinha da Matriz onde outros garotos e garotas também queriam compartilhar suas alegrias. A brincadeira inaugural dos brinquedos era algo mágico e o intercâmbio, espontâneo e inesquecível.

Bolas, carrinhos, bonecos e máscaras de super-heróis e bicicletas para os meninos. Bonecas variadas e móveis e utensílios de casinha para as meninas. “Vejam só o que eu ganhei de Papai Noel!”, era a frase mais repetida na conversa à sombra do coreto. Assim se dava o momento mais sublime do Natal dos felizes. O sertão se cobria todo de sorrisos e de luz.

No embalo do dia anterior, o Natal nos presenteava com programação televisiva especial, repleta de desenhos de personagens conhecidos envolvidos na festa e de clássicos como A Rena do Nariz Vermelho e o Milagre da Rua 34, além de versões do famoso conto de Charles Dickens, protagonizado pelo avaro Scrooge ou um equivalente. Tempo bom aquele.

 

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

2 comentários em “Natal dos felizes

  • Sandra Kiefer
    15 de dezembro de 2017 em 11:33
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    Ribas nos brinda com mais um texto delicioso, que nos remete a um tempo em que os sonhos flutuavam como bolhas de sabão e que existia Menino Jesus no Natal (ainda que feito de gesso)…

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    • 15 de dezembro de 2017 em 11:58
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      Obrigado, Sandra querida. Os tempos atuais estão muito confusos e sombrios. Precisamos revalorizar as coisas simples e boas da vida para fugir das miragens digitais de hoje. Beijo. Feliz Natal para você e sua família.

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