Newton e Rubem Braga em Belo Horizonte

Newton Braga trabalhava na redação do “Estado de Minas”. Formou-se em Direito, junto com Tancredo Neves, Ciro dos Anjos e Guilhermino César. Jogava no segundo time do América mineiro, como zagueiro. Escrevia reportagens e crônicas. Em 1932, resolveu voltar para sua terra natal, Cachoeiro de Itapemirim (ES).

Antes de sair do “Estado de Minas”, perguntou à chefia do jornal se poderia deixar o emprego ao irmão mais novo, que morava em Belo Horizonte desde o ano anterior, como escreveu Humberto Werneck no livro O Desatino da Rapaziada (Companhia das Letras).

“O garoto estava com dezenove anos e se chamava Rubem Braga”, relata Humberto Werneck. “Não tinha experiência de jornal, mas havia publicado umas crônicas no Correio do Sul, de Cachoeiro, jornal de propriedade da família. Sua estreia se dera no Grêmio Domingos Martins, do Colégio Pedro Palácios, com uma crônica intitulada ‘A lágrima’, que decididamente incentivava apostas num grande futuro literário: ‘Quando a alma vibra atormentada as pulsações de um coração amargurado pelo peso da desgraça…’.”

No “Estado de Minas”, começava a se mostrar ao Brasil o maior cronista que o país já teve e, pelo visto, continuará sendo, por muito tempo, insuperável nesse gênero literário, no qual suplantou até mesmo o romancista e contista Machado de Assis.

Newton Braga fundou em Cachoeiro a primeira agência de propaganda do Espírito Santo, a Galo Publicidade. Cuidava do cartório da família e advogava. Em 1958, mudou-se para o Rio. Trabalhou na revista Mundo Ilustrado, como revisor do colunista social Ibrahim Sued, e também como redator de jornalismo e publicidade da TV Tupi.

Dedicou-se ainda à poesia, com estilo lírico, tendente ao modernismo. O poema “Namorados” dá o tom de sua obra, que foi reeditada pela Booklink, do Rio, em 2011, na coletânea intitulada “Lirismo Perdido”. Nela está o poema que se segue:

NAMORADOS

Quis ser sincero uma vez. Tomei-lhe as mãos entre as minhas,

– como na velhas baladas –

pousei meus olhos nos seus

– como nas velhas cantigas –

e lhe falei, docemente, verdades desconsoladas:

“ – Tu não me és indispensável mas me fazes bem.

Eu te quero, um pouco por amor, um pouco por hábito.

Não és a que eu esperava, mas sentirei se tu partires.”

Percebi uma promessa de lágrimas nos olhas dela e me acovardei:

“Mentira, querida. Tu és o meu primeiro, o meu único amor: o meu sol, a minha razão de ser.”

Mentiras já tão bisadas…

Tal qual nas velhas cantigas,

Tal qual nas velhas baladas…


A casa dos Braga

“Sim, nossa casa era muito bonita, verde, como uma tamareira junto à varanda, mas eu invejava os que moram do outro lado da rua, onde as casas dão fundos para o rio. Como a casa das Martins, como a casa dos Leão, que depois foi dos Medeiros, depois da nossa tia, casa com varanda fresquinha dando para o rio.

Quando começavam as chuvas a gente ia toda manhã no quintal deles ver até onde chegara a enchente. As águas barrentas subiam primeiro até a altura da cerca dos fundos, depois às bananeiras, vinham subindo o quintal, entravam pelo porão. Mais de uma vez, no meio da noite, o volume do rio cresceu tanto que a família defronte teve medo.

Então, vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era uma festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito, como se fazia e se tomava café naquela noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim.”

Trecho da crônica Os Trovões de Antigamente, de Rubem Braga. Na foto, a visão lateral da casa da família Braga, em Cachoeiro de Itapemirim. Foi transformada em uma biblioteca e em minimuseu, com peças, antigas, alguns documentos e fotos. 
Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

Um comentário em “Newton e Rubem Braga em Belo Horizonte

  • 18 de março de 2017 em 17:51
    Permalink

    Lindo, simplesmente!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *