O Centro do Rio tem de voltar a ter moradia

Washington Farjado: arquiteto e urbanista

O arquiteto e urbanista Washington Fajardo recusa-se a ver a cidade na visão dos olhos de pássaro, a “bird’s-eye view”. Ele a vê na perspectiva do pedestre. Durante oito anos, foi assessor especial do então prefeito do Rio, Eduardo Paes. O Centro da cidade ganhou o Porto Maravilha, a renovada Praça Mauá, o Museu do Amanhã, o Museu de Arte do Rio (MAR).

Fajardo empenhou-se o quanto pôde na revitalização da região central, inclusive na restauração dos imóveis tombados. De 2012 em diante, presidiu o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. A obsessão de Washington Fajardo é que o coração do Rio volte a ser um local de moradia, tendo vida dia e noite, como era nos anos dourados, até a transferência da capital para Brasília, em 1960.

Por que o empenho em revitalizar o Centro do Rio?

Washington Fajardo – A cidade coerente com as necessidades do século XXI é, sobretudo, aquela que tem vida no Centro. Este é um enorme desafio para os cariocas: reocupar os vazios de sua área central, readensando-o, dotando-o de uma boa infraestrutura de transportes, permitindo-se que as pessoas se apropriem de um lugar que tem grande valor cultural. O que é especialmente desafiador, agora, é dar qualidade aos espaços públicos e fomentar as moradias. É fazer, a partir do Centro, uma cidade de baixo carbono.

O que se perde com a deterioração das áreas centrais nas cidades brasileiras?

Washington Fajardo – Imagine a quantidade de visitantes que poderia estar usufruindo dos centros urbanos maravilhosos, pelo país afora, como os de São Luís, do Recife, de Salvador, Belém, Porto Alegre. Como é que a gente não está aproveitando essa riqueza? São centros históricos soberbos, portugueses na sua origem. O Centro do Rio contém a história do país. Tem um imenso valor cultural e afetivo para todos os brasileiros.

O que gerou o esvaziamento residencial dos centros históricos?

Washington Fajardo – Depois da Segunda Guerra, quase o planeta inteiro embarcou na onda das cidades norte-americanas. E, aqui no Brasil, isso se deu especialmente com a construção de Brasília. O chamamento geral era: vamos espalhar as cidades; o carro vai resolver o espraiamento urbano. Isso levou às crises energética e ambiental, e a todos os problemas decorrentes desse modelo. A suburbanização horizontal foi o grande produto de exportação dos Estados Unidos. A Europa lutou muito para combater o modelo urbanístico americano, fazendo um esforço continuado de manter suas cidades densas, com populações nas áreas centrais.

O urbanismo funcional, em que se separam as áreas da cidade por atividades de moradia, trabalho ou comércio, tem em Brasília o exemplo máximo no mundo inteiro. Aprendemos com isso?

Washington Fajardo – O país ainda não sabe, hoje, como foi e como tem sido equivocada a ideia do zoneamento funcional. A síntese do contrassenso deste modelo funcional, que eu gosto de citar quase de maneira anedótica, é o setor hoteleiro de Brasília. Não se pode ter ideia mais maluca: colocar todos os hotéis da cidade num mesmo lugar. Então, Brasília é só o lado monumental. É inorgânica. Falta-lhe a escala do cotidiano. É claro que, do ponto de vista simbólico, como cidade monumental, Brasília se sobressai. Mas é a cidade orgânica que dá sustentabilidade à cidade monumental. É o modelo de separação das funções urbanas que Brasília insustentável. Sem o pequeno comércio, sem a moradia em meio às miudezas do cotidiano, há apenas uma cidade dos edifícios públicos, dos museus, dos extensos gramados e das grandes praças.

O Rio tem condições de voltar a ter moradia no Centro?

Washington Fajardo – Sim, porque tem um zoneamento de uso misto. Mas, em alguns casos, como o da Avenida Rio Branco, é praticamente impossível alguém morando nela. Suas edificações já estão tipologicamente definidas para as atividades financeira e comercial. Já a Avenida Beira Mar sempre foi de caráter residencial, mas seus edifícios converteram-se ao uso comercial. Lá, a moradia é algo que dá para ser recuperado. Onde moram as pessoas no Centro do Rio? Moram no sistema de morros da região portuária: Morro da Conceição, Morro do Livramento, Morro da Providência, Morro do Santo Cristo, Morro do Pinto. E, para o outro lado, moram na Lapa, em Santa Teresa e naquela franja baixa do morro de Santa Teresa, que acompanha exatamente a Rua do Riachuelo.

O que é preciso para que, de fato, as pessoas voltem a morar ao Centro?

Washington Fajardo – Tem de se acabar com a ociosidade dos imóveis . Há muitos imóveis vazios. Combater o abandono de imóveis é uma agenda muito difícil. O gestor público carece de ferramentas para mudar isso. Esta é uma matéria que está em poder das secretarias da Habitação, cujo comando é político. Então, essa agenda não anda. Defendo o ponto de vista de que se tenham, no Brasil, agências de habitação social. Funcionariam como uma empresa pública, atuando como um empreendedor imobiliário público.

 

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

Um comentário em “O Centro do Rio tem de voltar a ter moradia

  • 5 de março de 2017 em 11:46
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    Excelente reportagem. Sem habitação mesclada nenhuma área da cidade irá ser segura e prosperar. Em especial as áreas centrais. Seria uma atitude ecológica também, porque quem mora no Centro rapidamente dispensa o automóvel.

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