O dia em que JK morreu

banca_carangola

banca_de_revistas_xTem mais de quarenta anos que a Banca Carangola está instalada nesta esquina. Já foram muitos os jornaleiros que passaram por aqui. Quando a banca chegou, ficou encostada no muro da casa da esquina, a mesma de hoje, de frente para a rua. Era mais fácil de ver o movimento, e todo mundo podia enxergar quem estava trabalhando nela. Cumprimentavam-se, mutuamente, jornaleiro e passantes.

Sobre o local da banca, assim me contaram os jornaleiros mais antigos, que nela trabalharam. A história narrada por eles é a seguinte. Antes mesmo que a banca fosse instalada na esquina das ruas Congonhas com Carangola, escolheu-se o nome dela. Viria a ser a Banca Carangola.

Esse batismo antecipado fez com que, no momento da instalação, ela tivesse que estar situada no vértice da esquina, com maior proximidade à rua da qual tomou o nome emprestado. Foi assim que se encostou a banca em uma casa da Rua Carangola.

Desde então, até onde é possível saber, esse quiosque de lata teve sua posição trocada umas duas vezes. De um tempo para cá, pelo menos desde 1997, ela ficou de costas para a rua, e sua parte traseira virou peça de publicidade.

Pois bem, com tanta história assim, um desses jornaleiros mais antigos que passou por lá, me contou o ocorrido no dia em que nosso ex-presidente JK faleceu. O mineiro Juscelino morreu em um acidente de carro num domingo, 22 de agosto de 1976. Deve ter sido mais à tarde, ou já pela noite, não sei. O que eu sei é que esse antigo jornaleiro da época me disse que os jornais trouxeram a notícia no dia seguinte, repercutindo e aprofundando o noticiário das emissoras de rádio e TV.

Às segundas-feiras não circulava o jornal Estado de Minas. Era substituído pela edição do jornal Diário da Tarde, também impresso pelos Diários e Emissoras Associados. A entrega nas bancas seguia o padrão da circulação do Estado de Minas. A distribuição ocorria de madrugada. Colocavam os repartes dos jornais nos cofres de todas as bancas da cidade. Ao abrirem as bancas, cedinho, os jornaleiros já encontram os repartes de cada uma delas. Porém, naquele dia não foi assim.

jor1xRodaram uma tiragem muito maior, atrasando a distribuição. A população, ávida pelas notícias, tinha ido para os locais onde estavam as bancas, aguardando a chegada dos jornais. Meu amigo, o jornaleiro antigo, me disse que havia uma pequena multidão em volta da Banca Carangola. Muita ansiedade. Era tanta e tanta gente que ele ficou preocupado se conseguiria atender a todos. Finalmente, lá pelas sete e meia da manhã, a Kombi chegou com o reparte.

O jornal era rodado em cadernos. O jornaleiro costumeiramente os dispunha no balcão, e os encadernava rapidamente. Quanto mais experiente era o jornaleiro, mais rápida era essa encadernação sobre o balcão. Mas, naquele dia, não deu para fazer do jeito de sempre. A população, muito ansiosa, não deixou. O jornaleiro teve que improvisar. Encadernou no chão mesmo, porque nem ao menos deu tempo de ele entrar na banca.

Enquanto casava os cadernos, vendia, recebia, dava troco, com gente às vezes nem se importando em recebê-lo. Foi tudo ali, na calçada. Em 15 minutos a edição se esgotou. Aí ele pôde entrar na banca.

Se, por um lado, o jornal acabou, os que o queriam continuavam chegando. O entregador havia avisado que viria outra edição. Passou muita gente por lá, contou o jornaleiro. Muitos ficaram por ali perto, esperando a nova tiragem chegar.

Por volta das onze horas, veio a nova edição. Outro sufoco. De novo, casou o jornal ali no chão. As pessoas disputavam cada exemplar. Pegavam o jornal, e ficavam nas imediações, sentadas no murinho da casa conversando ou lendo solitariamente. Ou iam para a Padaria Santana tomar um café. Parecia que queriam ficar por ali mesmo, conversar, expressar a tristeza, ou, simplesmente, trocar umas ideias sobre a vida. Estavam todos muito tristes.

Hugo Teixeira

Hugo Teixeira

Jornaleiro

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