O escritor e a ruiva

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Esta seria mais uma das histórias que deveriam ter as informações checadas. Mas vou contá-la mesmo assim, pois considero que a pessoa que me fez o relato é merecedora de confiança. Vem aqui nesta banca gente dos mais variados tipos. A narradora deste surpreendente episódio compra aqui, às vezes. Quer saber das revistas de arquitetura, paisagismo, decoração e, de vez em quando, também pergunta pelas de moda. Mal sei seu nome.

Um detalhe importante que vai se revelar ao longo deste relato: suspeito que o caso por ela descrito seja autobiográfico. Por quê? Porque a personagem do caso descrito é ruiva, tal qual a própria narradora. E as ruivas são raras, ainda mais relatando uma história tão interessante. O motivo de eu ter tido o privilégio de ouvi-la? Não sei, já me cansei de pensar nisso e pronto. Como se diz no “Face”: pronto, contei!

Ela disse que foi ao Chile com o marido para uma visita a diferentes partes do país. Aproveitando a estadia por lá, resolveram incluir uma visita especial às três casas do poeta Pablo Neruda, todas elas em diferentes regiões chilenas,  todas elas transformadas em museus. Uma casa está na capital, Santiago; as outras duas em Valparaiso e em Isla Negra, na área costeira ao sul de Valparaíso, a cerca de 100 km da capital. Cada uma com um nome.

A primeira a ser visitada foi a de Santiago, chamada de La Chascona. A segunda foi a de Isla Negra. E a terceira foi a de Valparaiso, chamada de La Sebastiana. Todas as visitas, segundo o relato, foram em meio a outras atividades, já que ela pretendia ver outras coisas além das casas. Por isso, contou, a visita a Valparaiso foi já no último dia de viagem, às vésperas da partida. Tudo meio corrido, com horários muito apertados.

Lá chegando, muitas surpresas pela singularidade da cidade, pela singeleza, e, ao mesmo tempo, pela arquitetura quase marítima da residência, muito parecida com um barco. Ela disse que em dado momento, com a atenção dispersa pela beleza do lugar, o companheiro de viagem, preocupado em fazer fotos antes do fim da luz do dia, disse a ela que desceria, porque faria os registros fotográficos na parte externa. Ela relatou que não ouviu bem, e somente se deu conta da ausência um pouco mais tarde.

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Na foto do alto, La Chascona, que dá nome à casa do poeta em Santiago e que para ele representava a ruiva descabelada. Aqui, o símbolo da Fundación Pablo Neruda

Com o término da visita interna e, sem saber onde se encontrava o marido, ela desceu, e começou a procurá-lo já fora da casa. Disse que foi a alguns locais e que, tendo ido à lojinha de lembranças, lá perguntou à atendente se havia visto um brasileiro. A resposta foi negativa, mas que um senhor que lá estava lhe respondeu. “Lo vi. Su marido se huyó con una morena”, disse aquele senhor bigodudo, bonachão e muito alegre.

Ela disse que ficou muito surpresa com o que aquele senhor lhe respondeu e que, com muita raiva também, resolveu não dar crédito ao que ele lhe contara. Saiu para continuar procurando o marido. Passado um tempo, o encontrou fotografando, conforme lhe avisara. Um pouco nervosa, relatou ao marido o que o senhor lhe contara, e que, a convite do esposo, foram ao café do museu para se assentar e tomar alguma coisa para se acalmar.

Já no café, comodamente sentados, o marido lhe chamou a atenção para um senhor que entrou no ambiente, e lhe apontou exatamente o mesmo senhor que lhe havia feito a brincadeira de que não gostara. Não é possível que você o conheça, afirmou vigorosamente. É este o senhor que disse que você fugiu. Ele, o marido, lhe perguntou. Você sabe quem é? Não. Pois esse é o Antonio Skármeta, autor de “O Carteiro e o poeta”, um filme inspirado em seu livro de que ambos gostaram muito.

Sem que tivessem tempo de mais esclarecimentos, Skármeta se aproximou e, rindo muito, exclamou: encontrou seu marido, hahaha…Meio em choque, não lhe restou alternativa senão cair na gargalhada também. Riram todos. Riram muito. A seguir veio o convite para que o escritor se assentasse e aceitasse tomarem juntos o vinho que já estava servido. E assim foi.

Skármeta estava no museu a convite da Fundación Pablo Neruda para dar uma palestra sobre os 400 anos de existência da obra Dom Quixote, de Cervantes. Conversaram muito, confessou a paixão pela música popular brasileira, e mostrou ingressos para um show de Toquinho dali a alguns dias. Pediu que o casal ficasse e que saíssem depois. Talvez, se quisessem, dormiriam na cidade, ele indicaria um bom hotel. Não puderam. Tinham que ir por conta do voo cedo do dia seguinte.


As casas de Neruda no Chile também são tema deste vídeo:
Hugo Teixeira

Hugo Teixeira

Jornaleiro

2 comentários em “O escritor e a ruiva

  • 20 de novembro de 2016 em 23:00
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    O sentimento é que conheço a história narrada nas vozes do jornaleiro e dos jornalistas. Parece que eu estava lá nas casas do poeta Neruda.

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    • 21 de novembro de 2016 em 21:44
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      Como podemos viver tão intensamente um Amor e sobreviver sua ausência!!!

      Resposta

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