O gato Tibério

Na casa de dona Germana, lá nos cafundós de Minas, havia um gato. Um gato amarelo, cheio de preguiça para dar e mil mistérios a esconder. Tibério pertencia à filha Lara. Ele parecia ser a criatura mais centrada do mundo, paciente com tudo e todos e dono de um inquietante olhar fixo. Sem mexer um fio de bigode, ele ficava horas ouvindo e fitando a dona. A menina lhe contava estórias, sonhos da noite anterior e até alguns segredinhos. Tibério olhava ela falar, sempre com olhos abertos e fazendo a mesma pose. Esse retrato se alterava só num detalhe, quando, vez por outra, ele exibia a ponta da língua.

Nada prendia mais a atenção do bichano dourado do que a tagarelice de Larinha. Fora isso, só mesmo a chuva lá fora. Nessa hora, lá ia Tibério pra janela mais alta da casa, no banheiro da mãe de sua dona. Ficava lá horas ouvindo o tique-tique dos pingos batendo no vidro e dos estouros de raios – nessa hora seu pelo arrepiava levemente. Tibério parecia não temer nem desejar a nada e a ninguém. As gatas da vizinhança miavam alto em noites de lua cheia. Mas ele ficava quieto, sem atender aos apelos, apenas espiando o movimento de rabos sobre muros e telhados. Namorava à distância, sem algazarra.

Gato de Larinha desde filhote, ele gostava de dormir com a barriga pra cima, afundado no canto do sofá. O raio do sol atravessava a sala e deitava sobre seu pelo, deixando-o reluzente. Tibério não queria nada além de carinho, das duas tigelinhas (ração & água) ao lado da geladeira e da esperança de ali viver tranquilamente as suas sete vidas, até ser chamado ao paraíso dos gatos. Mas será que ele já não se sentia lá? Até o passarinho da gaiola e o peixinho do aquário pareciam ser solenemente ignorados. Será que Tibério lhe soava nome de ancião, o que o desanimaria a pular, a escalar e a pôr as garras na água?

As obrigações do felino fleumático se resumiam a se limpar com lambidas ou por meio das patas… lambidas. Não era dado sequer a miaus, a caçar bichos menores e a colocar o focinho onde não era chamado. Seu rabo comprido subia até a cabeça quando lhe davam leite no pires ou quando roçavam sua nuca. Depois desses momentos, olhava para trás com seus olhos penetrantes. Só faltava soltar um comentário blasé ao estilo de Garfield ou do Gato de Botas. Não me lembro de alguém testar se ele conseguia pousar com as quatro patas no chão quando solto dos braços de quem o levava. Mais um mistério.

Nas horas vagas (não seriam todas?), Tibério gostava de brincar com sua bolinha de plástico estampada com estrelinhas e com guizos dentro. De manhã bem cedo dava para ouvir o vai-e-vem do brinquedo debaixo da cama de Larinha. A segunda distração preferida era ficar estapeando a almofada magrinha no encosto da cadeira de bambu na varanda. Algo mais de lúdico? Bem, uma vez o animal de estimação da família fora visto brincando de esconde-esconde com uma borboleta no jardim. Novelos de lã e televisão ligada nunca provocaram reações daquele que se movia sem fazer qualquer barulho.

A biografia monótona desse gato teve apenas uma guinada: a derradeira. Larinha viajou com os pais e não pôde levá-lo dessa vez. Teve de deixar ele com as duas irmãs. Quando a menina voltou, uma semana depois, Tibério não estava mais lá. As irmãs o expulsaram? Ele simplesmente fugiu por se sentir abandonado? Resolveu sair em busca de sua dona? As perguntas sem resposta fizeram Larinha chorar e chorar por vários dias e noites. Ela não parava de perguntar o que tinha ocorrido com o bicho de sua mais elevada estima.

Até hoje, 40 anos depois, Lara tem a sensação de que o seu velho companheiro peludo e caladão está espreitando a sua conversa, pelo lado de fora da casa. Acompanhada de Tebas, uma gata siamesa, bem diferente de Tibério, ela chega até a enxergar a figura dele parada sobre muros e telhados. Tais aparições a deixam de pelo levemente arrepiado. Tebas ganhou de Lara esse nome de cidade egípcia inspirada no gatinho de infância. Lara, que já foi Larinha e hoje tem filhos adolescentes, quis homenagear um certo (ou será errado?) gato amarelo, cheio de preguiça para dar e mil mistérios a esconder.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

2 comentários em “O gato Tibério

    • 2 de outubro de 2017 em 09:48
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      Com o tempo, ficou reumático. E o dono não pode ser asmático. Ei, que antipático! Beijo, Sandra.

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