O jornalista sobreviverá com inteligência

A notícia virou commodity. E só o jornalista não vê.

O desenvolvimento de sistemas inteligentes de produção de conteúdos para veículos impressos e digitais automatiza o processo de produção e redefine o conceito de notícia e o papel a ser desempenhado pelos profissionais de imprensa.

Ao contrário do que muita gente imagina ou propaga, a morte do jornalista não está selada. O profissional ainda será necessário como coletor dos dados que irão possibilitar a criação de textos. Esta sim, a redação, será feita pelas máquinas, com estilo jornalístico que for mandado.

Pelo menos no primeiro momento, o jornalista terá na tecnologia, baseada em inteligência artificial, um ponto de apoio. E não um substituto, como alguns analistas desprovidos de senso crítico podem avaliar. Na prática, será a valorização da apuração. Jornalistas serão responsáveis por alimentar os sistemas inteligentes com dados sobre os acontecimentos que serão cobertos. E direcionarão fontes para a busca de informações adicionais.

Ainda cabe aos humanos inserir orientações de linguagem e padrões de texto, de acordo com a política editorial da publicação. O software é capaz de gerar textos em diferentes versões, com padrões tipicamente humanos, com uma agilidade que nenhum redator teria. Com uma vantagem adicional de conseguir cruzar informações com agilidade superior à maioria dos repórteres disponíveis nas redações.

Em texto publicado no site Proxxima, o publicitário e executivo Pyr Marcondes assinala que “máquinas programadas para produzir notícias em velocidade alucinante e em quantidades impressionantes já invadiram as redações de centenas de jornais em todo o mundo. Caminho sem volta para o jornalismo. E jornalistas.” Para ele, o destino parece tenebroso. Aliás, o título do artigo é “Manda seus jornalistas embora, que meu software resolve o resto para você”.

Após participar de um dos principais eventos do cenário tecnológico mundial, ele constata que os maiores jornais dos EUA, Washington Post e New York Times, “entraram de cabeça e possivelmente não sairão nunca mais da onda de adoção de sistemas inteligentes de produção de conteúdos jornalísticos”. Os jornais possuem, hoje, softwares que produzem notícias nas áreas de esporte, economia, moda, saúde e outras mais, “substituindo a mão de obra humana com maior rapidez e eficiência”.

“Nas redações de mais de 400 publicações hoje ao redor do mundo, os softwares disputam lado a lado a posição de jornalistas com os próprios jornalistas. Isso dito por editores de grandes jornais a respeito de suas próprias redações”, assinala Pyr Marcondes.

Commodities

Mesmo com todo o tom pessimista, o próprio autor reconhece que os jornalistas terão um papel de coletor de dados ou informações — distinguir a diferença entre os dois termos já será um passo importante. As “máquinas” serão abastecidas por alguém que fará o papel de apurador.

Em um exemplo, um grande acidente de carro ou de um avião que afunda com um ministro do STF, um profissional de jornalismo será importante para coletar informações de alguma testemunha informal. O jornalista será importante para cultivar a fonte que viu o avião caiu, mas teme ser perseguido caso torne pública a história. Um jornalista pode támbém tirar a foto de uma conversa importante, travada entre um deputado e seu filho, que leva a uma informação relevante para o conhecimento sobre o ambiente político.

Sem tais informações de bastidor, testemunhais, as notícias serão apenas mercadorias sem cor própria, mesmo que os sistemas saibam produzir textos com estilo jornalístico ou literário. Serão commodities.

O profissional do futuro deverá entender pelo menos duas coisas: primeiro, que a máquina não é necessariamente uma concorrente. Pode ser uma ferramenta de apoio ao trabalho. E são mais os redatores clássicos que correm risco nas redações. Segundo, o jornalista deve entender que a habilidade de apurar informações diferenciadas, utilizar elementos humanos da apuração, é que vai fazer diferença na sobrevivência futura.

Aproveite para debater este e outros temas no Facebook do projeto Designers do Futuro.


Carlos Placido Teixeira é jornalista e um dos desenvolvedores do programa Designers do Futuro

3 comentários em “O jornalista sobreviverá com inteligência

  • 1 de abril de 2017 em 16:00
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    Muito bom, Carlos. Abraço. É isso aí.

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  • 4 de abril de 2017 em 10:12
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    Muito bom, mas faltou um detalhe! Os jornalistas podem ficar tranquilos pois nunca perderão seus empregos, sendo substituídos por uma máquina de fazer cálculos matemáticos. O computador é apenas uma máquina de “inteligência artificial”, que compara grandezas, previamente previstas e incrementadas pela inteligência humana. Nunca cria nada de novo que não esteja programado previamente.

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    • Carlos Teixeira
      9 de abril de 2017 em 09:51
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      isso está dito no texto. Só não generalizo tanto. Algumas atividades serão substituídas de fato.

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