O mártir mineiro das pistas de corrida

Minas Gerais já teve o seu Ayrton Senna. Personagem conhecido por historiadores e amantes do automobilismo, Otacílio Rocha era a versão belo-horizontina do maior ídolo brasileiro das pistas de corrida. Tal qual o maior piloto brasileiro da história, ele morreu durante uma corrida e também aos 34 anos de idade.

Um ano antes do surgimento da Fórmula 1, o talentoso piloto mineiro pisou fundo no acelerador da sua baratinha número 46 na briga pelo pódio do primeiro e único Grande Prêmio Cidade de Belo Horizonte, no circuito ao redor da Lagoa da Pampulha.

Mas um grave acidente naquele cinzento domingo de 14 de agosto de 1949 o impediu de cruzar a linha de chegada. Saiu da disputa e da vida como mártir. A grande imprensa da época, como a revista O Cruzeiro e o jornal Folha da Manhã, detalharam com fotos e textos a tragédia.

A bandeirada do GP na pista improvisada se deu às 14h20, em frente ao Iate Golfe Clube (atual Iate Tênis Clube), diante de 50 mil espectadores ao longo do trajeto de 22 quilômetros. BH tinha 350 mil habitantes. Dos 21 no grid de largada, 10 completaram a prova, nove não terminaram e dois se acidentaram gravemente.

A Maserati do paulista Chico Landi liderou de ponta a ponta. Já na primeira volta, abriu vantagem de quase um minuto sobre o segundo colocado. Seu melhor tempo foi de 9 minutos e quatro décimos. Na reta asfaltada sobre a barragem chegou a fazer 150 quilômetros por hora.

Ao final, foram completadas oito das 12 voltas previstas em razão de duas batidas. Landi marcou o tempo de 1 hora, 23 minutos, 13 segundos e 7 décimos, num total de 164,4 quilômetros.  A prova reuniu outros ases do volante, entre os quais Henrique Casini e Anuar Daquer.

Os problemas do GP começaram já na segunda volta, quando o carro 40, do português Antônio Fernandes da Silva, capotou perto do Cassino (hoje Museu de Arte), partiu-se em três e teve o tanque explodido. O piloto foi atirado sobre um barranco, tendo a perna direita esmagada (amputada depois no Hospital São José) e sofrendo fratura exposta na esquerda.

Mas a colisão fatal ocorreria na quinta volta, na curva próxima à Casa do Baile, quando Otacílio passou por dentro e o carioca Gino Bianco, por fora. Ambos em grande velocidade. O mineiro entrou muito e bateu no meio fio. Para não atingir a multidão que assistia a prova, desviou rapidamente o veículo contra um poste de luz. Ele atropelou o guarda-civil José Alexandre Pinto e sofreu fratura na base do crânio, falecendo na hora. Teria sobrevivido caso não tivesse se sacrificado para salvar o público.

O poste ficou pendurado sobre a rua e a Polícia tentou paralisar a corrida para restabelecer a segurança, mas os organizadores preferiram encerrá-la a quatro voltas do fim. Os policiais também se preocupavam com a insistente movimentação do público na ânsia para ver melhor a corrida.

Na noite do dia seguinte, nos salões da Prefeitura, o prefeito Otacílio Negrão de Lima entregou aos seis principais classificados prêmios, taças e medalhas. Valdré Tassini, que cruzou a linha de chegada em último lugar, também foi premiado por ser o único mineiro a concluir a prova. Viva Otacílio, o Rocha.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

2 comentários em “O mártir mineiro das pistas de corrida

  • 7 de julho de 2017 em 12:38
    Permalink

    Parabéns pela reportagem do Otacílio “O Rocha” . Mostrarei aos meus e netos tal gloriosa história.

    Resposta
    • 13 de julho de 2017 em 23:18
      Permalink

      Obrigado. Temos de preservar e difundir essa história.

      Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *