O ovo da Maricota

Os grotões ainda têm muito a dizer sobre a alma mineira. Mas diziam muito mais em tempos menos acelerados. O educador Tião Rocha conta que, no começo dos anos 70, o Projeto Rondon pousou num arraial do Norte de Minas onde viviam famílias de lavradores, padre, farmacêutico, funcionário do Correio e agente ferroviário. Médico? Só uma vez por mês. Naquelas profundezas do sertão, a trupe de enfermeiros, antropólogos e assistentes sociais se encantou com um velho caboclo.

Misto de pajé e cacique, Galdino vivia solitário numa casinha de latão. Deitado na rede, ele meditava e dava conselhos a todos sobre tudo, desde como se trata umbigo de recém-nascido. Também fazia previsão meteorológica após checar a “testa da serra”. Vivia da venda de artesanato de barro extraído do chão da morada após a chuva, sem sequer se levantar. “Pra que ir até a vida se ela vem aqui?”, filosofava.

O palavreado folclórico do ancião, entrelaçando repertório e imaginação, foi naqueles dias chacoalhado quando conheceu a tevê. A prefeitura instalou na pracinha do arraial a máquina de fazer doidos, ligada das 19 às 21 horas. Galdino virou cativo das imagens preto e branco, que coloriram de vez sua oratória. O mais interessante foi quando expôs nova versão do Dilúvio.

“Por cima do céu tinha muitas pedras de gelo gigantes. Num dia, duas trombaram e produziram faísca que abriu rombo no teto do mundo. Os blocos derreteram e inundaram aqui embaixo. A água que cobria a lua também desceu. Foi então que os astronautas da Apolo foram para lá”, profetizou. Galdino, contudo, faria revelações bem mais desconcertantes.

No dia de rumar para outro logradouro, Tião deu adeus ao povoado, exceto a Galdino. Estava na estação ferroviária esperando sozinho o trem que sairia em breve quando chega galopando o velho sábio. Parou, pulou do cavalo e se despediu rapidamente do professor. Mas antes de voltar à sela colocou na mão do amigo um ovo embrulhado na palha de milho. “A maricota acabou de botar, tá até quente”, murmurou, saindo depois em disparada.

Pasmo, Tião não sabia o significado daquilo. Não era possível ter ficado tantos meses junto daquela gente e não saber o valor do ovo da maricota! Chorou feito menino. O que fazer? A única solução possível: encostou o pacotinho num canto do guichê, dizendo ao funcionário: “Vou deixar isso aqui, enquanto pego outra coisa ali, e já volto”. Foi embora e nunca mais voltou lá.


Ilustração de Leo Costa

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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