O pai e o filho

contos

Cuidava do pai há três anos. Abandonara as suas atividades para dedicar-se ainda mais ao velho, limitado à cama, os movimentos curtos, a estrutura frágil, os olhos abertos, fixados em um ponto misterioso do teto, próximo ao lustre. Passava longas e penosas horas entre os cuidados físicos mais pesados, relativos sobretudo à higiene, e as investigações na internet sobre a doença e as suas possibilidades de tratamento.

Há muito deixara de comunicar-se com o pai. No início, ele respondia laconicamente às suas perguntas, mas as frases pelo menos tinham começo, meio e fim. Com o tempo, elas se tornaram cada vez mais sintéticas, até o dia em que se transformaram em palavras soltas, muitas vezes desconexas. Os monossílabos não tardaram a aparecer. O filho resignou-se quando nem eles vinham mais, substituídos por um cenho franzido, um olho arregalado, a língua pra fora. Agora, lidava apenas com um corpo sobre o leito, inerte, a fisionomia inalterável. Até quando agüentaria?

Deixara a convivência com os amigos em segundo plano. Solteiro aos trinta anos, trocara as namoradas de carne e osso pelas virtuais, com as quais se encontrava rapidamente na rede, no intervalo entre a assepsia, os comprimidos e a troca dos curativos. Filho único e órfão de mãe desde os três anos, sentia-se absolutamente devedor do homem que contemplava à sua frente. Não havia um único dia em que não se lembrasse do quanto Jair havia feito por ele, em todos os sentidos. Não se perdoaria jamais se algo faltasse ao pai, se não fizesse o possível, o impossível e o impensável em favor dele.

Certa noite, já cansado das buscas obsessivas por ajuda, deparou-se, inesperadamente, com algo que lhe chamou a atenção, intrigando-o, num primeiro momento. Era uma novidade total na forma de abordar um caso como o do pai. Por um momento hesitou, lembrando-se dos fracassos anteriores e das decepções com médicos, médiuns e curandeiros. Algo misterioso, porém, impeliu-o a seguir em frente, mesmo sem ter certeza se teria a coragem requerida. Decidiu, então, ser rápido. Sem dar chance à dúvida ou ao desânimo, adquiriu o produto em poucos cliques, acreditando na promessa veiculada no site da empresa e respaldada por especialistas de várias partes do mundo. A encomenda feita pelo computador chegou em menos tempo que o previsto.  Jairo abriu o pacote com a pressa de quem corre contra o relógio. As instruções vinham em três idiomas. A leitura foi feita com rigor, e avançou pela madrugada. A posologia era simples, mas deveria ser precisa, e as contra-indicações eram poucas para os benefícios anunciados.

O efeito foi rápido. Depois de injetar o líquido na veia do braço, o rapaz caiu de joelhos junto ao corpo do pai, as mãos unidas na altura do peito, os dedos entrecruzados, como quem ora. Gemia. Pela última vez, agradeceu a Jair por tudo o que lhe fizera. Dos olhos abertos do velho, fixados em um ponto misterioso do teto, próximo ao lustre, escorreram as primeiras lágrimas.


Ilustração: obra de Franz Marc

Rogério Faria Tavares

Rogério Faria Tavares

Mestre em Direito pela UFMG e jornalista. Membro da Academia Mineira de Letras e do Pen Clube do Brasil, é cronista do Diário do Comércio. Casado com Sabrina e pai de Carlos e Gabriela, reside em Belo Horizonte, MG, cidade em que nasceu.

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