O paternalismo e a área da saúde

Na cultura patriarcal, os pais tinham o poder de fazer as escolhas que consideravam ser as mais adequadas para os seus filhos – sobretudo para suas filhas. Determinavam, por exemplo, o marido que mais lhes agradava, desconsiderando a capacidade e o direito de suas filhas de escolher. A partir dessa prática foi cunhada a palavra paternalismo. Com o passar dos anos, o paternalismo se expandiu para diversas áreas sociais e se tornou uma prática frequente nos serviços assistenciais, inclusive da área da saúde. Entretanto, graças aos avanços socioculturais passou a ser questionado e desestimulado por ferir a autonomia das pessoas.

Na área da saúde, a partir da segunda grande guerra, a discussão sobre a necessidade de consentimento dos indivíduos para participar de pesquisas e procedimentos, ganhou força em vários fóruns e documentos internacionais. Na década de 1970, com o surgimento da bioética, a autonomia é reconhecida como um direito das pessoas e uma exigência ética das relações entre profissionais de saúde e as pessoas.   

Não obstante os avanços no reconhecimento do direito das pessoas em decidir sobre a sua saúde, o paternalismo persiste em nosso meio. Essa é uma discussão complexa quando consideramos que, além dos profissionais de saúde, é preciso que cada pessoa com capacidade de exercer a sua autonomia possa efetivamente exercê-la, o que pode parecer, num primeiro momento, uma situação fácil de ser resolvida. Mas não é. Há, entre nós, pessoas que ainda querem que os serviços de saúde realizem inúmeras atividades e tomem as decisões que a elas compete.

Ficamos, portanto, diante de duas situações: profissionais e serviços que devem se qualificar para reconhecer e valorizar a autonomia das pessoas, informando, esclarecendo e permitindo que o diálogo respeitoso e a corresponsabilização aconteçam e, por outro lado, pessoas que devem ser proativas na busca de informações e esclarecimentos para nortear as suas decisões, sobretudo as relacionadas ao seu tratamento de saúde.

Vencer a barreira das relações influenciadas culturalmente pelo paternalismo e dar um passo adiante para convivências em que as pessoas sejam valorizadas, respeitadas e possam se colocar e conduzir suas próprias vidas nos parece ser uma das grandes questões atuais da área da saúde.

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

5 comentários em “O paternalismo e a área da saúde

  • 16 de novembro de 2016 em 20:30
    Permalink

    Caro Dr Aristides
    Excelente texto! Sim esta e uma questao bem atual e que merece reflexao e atitude. Na verdade tanto os profissionais quanto os individuos que buscam atendimento devem se atentar aos seus direitos e deveres. E o que observamos e que nem sempre isto esta claro e interfere na convivencia e nas relacoes da area da saude.
    👍

    Resposta
  • 16 de novembro de 2016 em 21:29
    Permalink

    Caríssimo Aristides,
    Paternalismo, assistencialismo, educação pobre realimentando uma cultura que evolui devagar. Hora mesmo de uma atuação junto a serviços e profissionais levando-os à promover na co_responsabilização o empoderamento desse sujeito sofrido da nação brasileira. Seu texto é abrangente e nos remete a pensar à fundo nessa questão essencial à cidadania. Abraços!

    Resposta
  • 17 de novembro de 2016 em 22:38
    Permalink

    Parabéns, Dr Aristides! Texto muito bem escrito.

    Resposta
  • 17 de novembro de 2016 em 22:53
    Permalink

    Excelente texto professor Aristides. Retratou bem a questão do paternalismo vigente na nossa sociedade e deixou bem claro a importância da proatividade tanto dos profissionais quanto dos indivíduos no processo de respeito e busca da autonomia respectivamente.

    Resposta
  • 6 de dezembro de 2016 em 22:55
    Permalink

    Muito bom o texto. A questão, ao que me parece, está relacionada à dignidade humana, no sentido de que as pessoas maiores e capazes devem ter o poder de decisão sobre o início, a continuidade ou o encerramento de seu tratamento de saúde, quando este não tiver respaldo científico de sucesso na medicina e isso lhes tiver sido devidamente esclarecido pelo profissional médico.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *