O pé de erva no canteiro da Contorno

banca_carangola

banca_de_revistas_xNem todas as histórias que ouço aqui são verossímeis, assim, num primeiro teste de veracidade. Há aquelas que, como dizem os jornalistas, é preciso checar. A que  vou contar agora é uma delas.  Há muitos estudantes do Colégio Estadual que moram aqui perto. Acho até que já houve mais, quando a educação pública era mais valorizada e estudar no Estadual Central era quase uma distinção. Pois bem. Esta história foi um estudante de lá que me contou. Vou repassá-la porque perguntei a uma outra testemunha sobre o caso e ela me confirmou.

Os alunos que desciam daqui para o colégio, em geral, percorriam o trajeto da Carangola, passando pela esquina da Primavera. Depois viravam à esquerda, na Desembargador Alfredo Albuquerque, à direita, na casa do professor Ayres na Magalhães Drumond, passavam pela casa do doutor Geraldo Bizzotto – na esperança de ver algumas de suas lindas filhas – e seguiam até a Contorno.

Nesse ponto, já se divisava a Igreja de Santo Antônio e, daí, era descer a avenida até a esquina da Fernandes Tourinho com São Paulo. Do que me contaram, para entrar dependia de qual portaria estava aberta e, depois, ir assistir às aulas no prédio-régua, ficar olhando a caixa-dágua-giz, lanchar na cantina-borracha, e acompanhar palestras no auditório-mata-borrão.

Bom, mas não é a história do colégio que contaram. Este estudante que me relatou o episódio disse que um dos alunos desse grupo que descia pelo caminho até o colégio, um dia resolveu tentar plantar um pé de maconha no canteiro da avenida do Contorno, em frente à igreja. Fez, assim, digamos, quase como uma experiência de Biologia. Juntou sementes, e, numa manhã no caminho para a escola, abriu um pequeno buraco na terra do canteiro, jogou as sementes, pôs terra por cima, e foi-se embora para a aula.

Passado um tempo, nem sei quanto tempo, meu confidente não precisou, e eis que a experiência deu certo. Brotou o pé no canteiro da Contorno. E o danado do pé cresceu. Todos os dias, os estudantes, em seu caminho, paravam para uma olhada rápida no estágio de crescimento do espécime de cannabis, e, dependendo do dia e da hora, paravam e ficavam aguardando… a rega. Isso eu achei meio surpreendente e fiquei pensando se era verdade mesmo. Minha testemunha, que é uma funcionária pública, professora de francês e, portanto, pessoa de fé me garantiu: é tudo verdade.

Pois, dependendo do dia e da hora, eles ficavam do outro lado da avenida aguardando a passagem do caminhão-pipa da prefeitura que percorria os canteiros regando-os com boa água. Era como se fosse uma espécie de prazer inusitado. A própria prefeitura, inconscientemente, é preciso ser justo, regava todas as plantas, inclusive o pé de maconha. E eles, ali em frente, observando e achando muita graça na cena.

O pé cresceu, ficou alto e, me contou o estudante, alguém achou que já estava na hora de colher. Um belo dia de manhã e o pé já não estava lá. Mistério e um certo pacto entre alguns deles de não falar sobre o assunto e desconversar quando perguntados se alguém sabia de alguma coisa. Passado um tempo, um deles, conhecido como o “ser das profundas”, era seu apelido, aparece com uma quantidade de maconha processada no mel; não era tanta coisa, mas apresentou o produto e o compartilhou para a alegria dos demais.

E é esta a história. Um contador que me narrou, uma testemunha que me confirmou e os outros envolvidos que, ao ler esse post, certamente se reconhecerão em algum dos personagens aqui descritos. Fica a dica!

Hugo Teixeira

Hugo Teixeira

Jornaleiro

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