O povão e os condomínios

Rogério Fasano é dono de uma cadeia de restaurantes e hotéis. Qualquer pessoa que o conhece sabe que ele é apaixonado pelo que faz, com exceção de uma tarefa que o seu negócio de restaurante lhe impõe. É o tal serviço compulsório de manobrista. “Isso é um hábito brasileiro. Você tem que parar o carro dos outros. Eu digo que é essa uma das coisas de que menos gosto na minha profissão”. E por que é assim no nosso país? O próprio Rogério Fasano oferece a resposta: “São Paulo é uma cidade muito espalhada. Deveria ser mais concentrada”.

É verdade. São Paulo cresceu horizontalmente, fazendo com que a sua média de ocupação populacional seja de 7,3 mil habitantes por quilômetro quadrado. Em Paris, essa densidade é de 21 mil habitantes por km². O fato ainda mais grave é que São Paulo continua se espalhando, puxada pelos condomínios residenciais. Deve-se sublinhar que esse fenômeno perverso está acontecendo na grande maioria das cidades brasileiras, até em pequenos balneários. E por que é perverso? Simples: o dinheiro para levar a infraestrutura aos afortunados é o que falta para melhorar a infraestrutura do povão. Como os recursos são sabidamente escassos, o lobby dos ricos sempre vence a chiadeira dos pobres.

O empreendedor imobiliário adquire uma área barata no cafundó, onde há matas, cascata e ar puro, sem gente por perto, porque gente incomoda. O loteamento logo se transforma em uma antologia de casas espaçosas, com varandas de frente para o horizonte sem fim. Daí a pouco, são vários os condomínios na região. Lá para aquele caixa-pregos se esticam as redes de água e de luz, as estradinhas pavimentadas, os serviços públicos.

Sim, aumentou a necessidade de mais serviços públicos para atender ao antigo vilarejo situado naquelas bandas dos condomínios, em uma das dobras da montanha. O remoto e humilde lugarzinho ficou estrategicamente muito bom para os trabalhadores locais: empregadas domésticas, babás, zeladores, encanadores, pedreiros, eletricistas, pintores, marceneiros. À beira da estrada, como em um estalar de dedos, brotaram posto de gasolina, supermercado chique, galeria de arte, salão para festas e banquetes, floricultura. Uma beleza. Porém, há um detalhe de somenos importância: na ida e na volta para a cidade, engarrafamentos de lascar.

Pois o pessoal dos condomínios, que já pedia ao governo a implantação de uma área de preservação permanente na mata vizinha, também quer alargamento da rodovia, passagem de nível no cruzamento viário, estação de tratamento de esgoto, posto policial. A turma se veste de branco, abraço o morro. Protesta contra a empresa que já há bastante tempo cava bauxita por lá, sem que, antes dos condomínios, esses recém-convertidos à causa do verde mostrassem um pingo de indignação pelos tantos anos do continuado vira e mexe da mineradora. O secretário do meio ambiente vai para a berlinda. É açoitado na internet, nas colunas sociais, nos comentários da tevê a cabo local.

O povaréu dos mais populosos bairros paulistanos, a massa dos escritórios e os jovens que se esfalfam no trabalho diurno para pagar o estudo da noite ocuparam a Avenida Paulista em junho de 2013. Pediam por ruas iluminadas, calçadas, pontos de ônibus, transporte coletivo e segurança à altura dos impostos que pagam. O povo não sabe, mas suas demandas competem com as das crescentes levas de moradores dos enclaves residenciais. Dotados de bar, restaurante, sauna, piscina e quadra de tênis, e às vezes até de área de preservação permanente, tais clubes residenciais exclusivos estão situados a horas de viagens cotidianas, em um vaivém que seria insuportável sem motores potentes, poltronas reclináveis e o máximo de tecnologia embarcada.

Rogério Fasano sonha com uma São Paulo adensada, como é Paris, Roma, Florença, Londres, Nova York, Barcelona ou Praga, em que as pessoas chegam aos restaurantes a pé, de ônibus, de metrô ou de táxi. O que esse empresário da hotelaria e da gastronomia diz, os melhores urbanistas do planeta assinam embaixo. Entre eles, o espanhol Oriol Bohigas, o dinamarquês Jan Ghel, o austríaco Cristopher Alexander, o brasileiro Jaime Lerner.

O adensamento, nos moldes proclamados por Fasano, só é possível, para começo de conversa, com transporte de qualidade, segurança nas ruas, parques e praças, acesso à moradia e aos serviços públicos essenciais.

Em linhas tortas, tudo isso foi escrito nos cartazes da Paulista.

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

2 comentários em “O povão e os condomínios

  • 31 de outubro de 2016 em 10:37
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    Excelente texto. É o modelo americano das grandes cidades – Nova Iorque é exceção – sendo replicado aqui, bovinamente, quer dizer, acriticamente, com anos de atraso. Este modelo está vencido, não condiz com o Século XXI e vai, felizmente, morrer em poucos anos mais, pois com o advento dos carros autônomos, as frotas nas grandes cidades vão diminuir, ninguém vai precisar comprar carros (isso está apavorando as Volkswagens da vida porque elas estão anos atrás do Google, Telas e outros. Provavelmente vão se fundir e muitas marcas vão desaparecer). Estive, 3 anos atrás, em Houston, Texas. Lá a cidade segue se expandindo horizontalmente e favorecendo os automóveis, não o transporte público. O que acontece? O setor público tem de acompanhar com a infraestrutura. Então se vê viadutos e mais viadutos sendo construídos e pistas sendo alargadas ou construídas. Muito bonito, mas impraticável: o povo tem de se virar, criar alternativas, alterar seus hábitos para não morrer em congestionamentos gigantescos. Tenho uma sobrinha que mora lá. Agora ela prefere “pegar” as 6 da matina no escritório e sair por volta das 15, quando não há – ainda – trânsito.

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  • 31 de outubro de 2016 em 18:02
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    Segues afiado, hem grande Valério?
    Nas capitais que voce citou é interessante ver, inclusive, como se resolveram com o carro enquanto solução individual de mobilidade urbana, exceção a Roma, que é uma doideira e ainda assim optaram pelas vespas e motonetas (individual por individual…). Até entendo que os enclaves possam – e tenham o direito de – existir desde que isso não onere em um centavo o setor público no que se refere ao investimento necessário para proporcionar as comodidades que pleiteiam. Que sejam integralmente financiado pelo grupo restrito de usuários. A verdade é que, mesmo com a solução da economia compartilhada, com as propostas das plataformas de TI que revolucionam transportes, hotelaria, livrarias, comércio varejista, o carro é malfadado. Não haverá meio de conciliar o seu uso com a exiguidade territorial urbana. Funcionou por um ate´longo período de um século quando 15 a 20% da população tinham acesso ao bem. Quando se banalizou como um “eletrodoméstico”, por saturação, não há racionalidade na sua manutenção. E a concentração urbana favorece a escala de todos os serviços, inclusive os de segurança, como queria a ainda festejada Jana Jacobs, em “Morte e Vida das Grandes Cidades”.

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