O provérbio e o contador de causos

A primeira vez que ouvi o provérbio “por causa do santo beijam-se as pedras” foi na minha infância com o Damasceno, um exímio contador de causos e grande amigo da família. Detentor de um grande repertório, contava histórias interessantes – algumas, por sinal, muito engraçadas – sobre pessoas que abriram mão da vida tranquila e pacata para fazer algo inusitado e ousado por quem muito amavam.

Em minha cabecinha de criança ficava pensando no “santo” e “nas pedras”. E se a imaturidade não me permitia captar o sentido daquelas histórias, o jeito especial com que ele as contava me prendia a atenção e aguçava a minha curiosidade.

Relembrando alguns fatos, me vem o alerta: fazer loucuras por quem se ama exige cuidado. Quando contava um causo em que houve algum exagero ou precipitação, Damasceno franzia a testa, remexia a boca e dizia: “Agiu sem pensar, perdeu a cabeça”. Com palavras simples, traduzia grandes verdades.  

Contava, entretanto, muitos causos em que o “beijo das pedras” expressava maturidade e fidelidade aos valores morais. Eu ficava impressionado com alguns de seus contos, e não me desligava, por nenhum segundo, querendo guardar os detalhes e, se possível, escutar o final que nem sempre era feliz.

O tempo passou. Guardei a saudade daquelas conversas interioranas na cozinha e na sala da casa. Ficaram os ecos dos exemplos e a habilidade com que Damasceno floreava as suas narrativas.

Volta e meia, me vejo repetindo o provérbio que escutei há vários anos na pequena Baixo Guandu. Aqui cabe uma revelação: sempre que posso, vou ao Espírito Santo e procuro pelo Damasceno. Depois de um bom papo, peço-lhe que me conte os seus causos. Ele, com boa memória, relata com alegria e arte histórias antigas e novas.

Repensando nas experiências da infância – e da vida adulta – posso dizer que muitas situações atuais reacendem em mim os cenários, os personagens, sobretudo dos relatos em que um grande amor desencadeou ações corajosas.

Não tenho dúvida de que, não obstante alguns equívocos e exageros, a humanidade conseguiu dar saltos importantes por causa das pessoas que muito amaram e ousaram “beijar pedras” por seus amores e ideais. Com suas atitudes, transformaram realidades, criaram novas culturas e deixaram, com certeza, importantes legados.

Comentar sobre isso me remete à generosidade da sabedoria popular, que compartilha, gratuitamente, os seus aprendizados construídos na observação e na reflexão dos fatos do cotidiano. Ah, se me permitem, só mais uma coisa: com um bom contador de causos, os provérbios perdem a rigidez, ganham leveza e maturidade. E se perpetuam.

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

8 comentários em “O provérbio e o contador de causos

  • 31 de outubro de 2017 em 16:17
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    A lembrança das histórias ainda na memória do Damasceno é importante , e mais para quem ouvi-la, porque sempre à uma reflexão a ser feita seja engraçada ou triste, ficando um aprendizado, e com certeza mais história serão contadas para novas reflexões.Parabéns pelo texto.

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  • 31 de outubro de 2017 em 20:04
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    Ahhh esses causos…
    Acho que conheco esse Damasceno, que conta causus muito engraçados e de forma muito espontânea. Nos faz sonhar e rir ao mesmo tempo pela forma como os conta, prendendo a nossa atenção. O causu do apaixonado que ousou por sua paixão, amorosa ou não, é muito interessante, pois demonstra que o ser humano, quando focado, pode atingir feitos antes inimagináveis, o que é maravilhoso na busca da felicidade e do desenvolvimento. Um abraço!!

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    • 31 de outubro de 2017 em 23:34
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      A vida simples do interior traz uma visão mais pura e pitoresca dos fatos e quando traduzidas pelos grandes contadores de causus ganham alma e tocam a vida de todos nós … parabéns Aristides … Mauro

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  • 31 de outubro de 2017 em 23:37
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    Muito especial este texto. Também me faz lembrar dos causos da minha infância, minha avó era tb sabia para fazer estas conjecturas, os ditos provérbios. O Damasceno teve e tem histórias para contar e como é bom ouvi las! Os provérbios que rodeiam essas histórias são muito envolventes e extremamente engraçados. Mas fiquei aqui pensando …não será vc Dr Aristides mais um contador de causos?

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  • 4 de novembro de 2017 em 00:51
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    Caro Dr Aristides Esse provérbio muito me tocou, ele nos ensina amor, perdão, alegria e sabedoria. Se não me falha a memoria conheço o Damasceno e a gente gosta de passar horas com ele contando causos. Gostei deste conto que por amor mesmo se beijam as pedras. Jandira Damasceno

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  • 7 de novembro de 2017 em 15:49
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    Parabéns pelo texto, Tico! Sinto muito pela perda do tio Damasceno. Adoro ouvir seus causos, pai! Quero ouvir mais um quando você voltar de viagem…

    Beijo!

    João Vitor

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  • 13 de novembro de 2017 em 10:32
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    Belíssimo texto. Evoca algo que para nós, mineiros, é essencial: buscar sentido nas coisas.

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  • 29 de novembro de 2017 em 17:33
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    Gostei demais desse provérbio. Bem verdadeiro e me fez pensar… pensar muito!
    O olhar para dentro de mim mesma. Obrigada.

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