O que a história do nome diz sobre a escolha profissional?

A área de Orientação Profissional da Psicologia utiliza uma técnica muito interessante com os adolescentes que estão angustiados pela escolha da carreira, chamada “história do nome”. Para além dos fins práticos de apresentação e aproximação com o grupo que está sendo trabalhado, as reflexões que podem ser obtidas são inúmeras.

Quando dizemos sobre a história do nosso nome reconhecemos que a primeira escolha da nossa vida já é arbitrária, definida pelos nossos pais. Nos moldes de organização da nossa cultura, não poderia ser diferente. Entretanto, esse ato carrega uma subjetividade, um desejo e um projeto de vida dos pais, que, sem dúvida alguma, não se encerra no registro em cartório.  

O fato de saber a origem e o porquê dos seus nomes já reflete de cara, uma expectativa dos pais em deixar claro que há um significado na escolha que eles fizeram que nunca deve ser desprezado pelos filhos. Esse fator volta à tona na adolescência e em toda a vida adulta, quando em situação de escolha, a opinião dos pais se torna extremamente significativa para os jovens angustiados.

Desde que nasci meu pai já sabia o que era melhor pra mim”; “Carrego o nome da minha avó”,Como eu me chamo diz muito sobre a minha família, não posso envergonhá-los”. Frases como essas foram ouvidas em uma prática da qual participei com jovens entre 14 e 18 anos que se viam na berlinda entre seguir carreiras profissionais muito diferentes das que os pais esperavam.

A tradição de seguir as “profissões da família”, muito comum entre médicos e advogados, revela uma pressão enorme, que vai contra as inúmeras possibilidade de cursos e atuações profissionais que vemos hoje. Antigamente, esse era um fator indiscutível e limitado pelo mercado, mas a grande oferta é o que de fato traz insegurança para os jovens que não sabem se é melhor ouvir os pais ou seguir o que gostam.

A orientação da família e a pouca idade são também fatores bastante presentes. “Minha mãe me conhece mais do que eu mesmo. Quem melhor do que ela para saber o que é melhor pra mim?”. Não é segredo para ninguém que o retorno financeiro é o que os pais mais esperam para os filhos, na maioria das famílias. O que não é levado em conta é a quantidade de profissionais insatisfeitos e mal pagos, não pela profissão que escolheram, mas por estarem fazendo o que não gostariam de fazer.

Sabe aquela máxima “trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”? Pois é. O mercado é outro, o formato de trabalho mudou e o jovem hoje é muito mais empreendedor. Fazer o que gosta é uma exigência deles. E é aí que mora o impasse: o mercado exige um empreendedorismo pessoal, mas os pais repreendem pelas suas tradições.

Na minha opinião, esse é o grande ponto de angústia entre o fazer o que é certo e o que é desejável por outro. Há um medo de errar, de fracassar e de se arrepender, que ainda faz muitos médicos e advogados desistirem dos seus sonhos.  

Cínthia Demaria

Cínthia Demaria

Jornalista, psicóloga e co-fundadora da empresa de marketing digital Tea With Me

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