O que é empreendedorismo, afinal?

“Disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços ou negócios”, me respondeu o Google como primeiro resultado da minha busca. Em uma pesquisa rápida com amigos online no Facebook obtive as seguintes respostas: “Inovar”. “Enxergar possibilidades onde ninguém viu”. “Abrir e gerir a própria empresa”, “Criar, desenvolver-se”. “Lucrar com um potencial de trabalho, seja ele adquirido na vida acadêmica ou na experiência do dia a dia”. “É dar um passo a mais”… Além desses, obtive vários sinônimos de sucesso e realização profissional como resposta.

Algumas empresas de Recrutamento e Seleção já consideram o termo até como qualificação para um cargo. O tal ‘perfil empreendedor’ tem sido a principal resposta quando se pergunta, em uma entrevista de emprego, sobre suas qualidades. Para outras pessoas, entretanto, tornar-se empreendedor é se ver livre de um chefe e poder deter a gestão do negócio independente, como tentativa de obter mais lucros do que como um empregado.

O contexto político e econômico favorecem a emergência desse campo, principalmente quando faltam vagas no mercado e quando há maior oferta de cursos nas universidades. Com a concorrência saturada e com a política do QI (quem indica), não há tempo a perder para ser reconhecido naquilo que o sujeito considera-se capaz, a não ser trilhando os seus próprios caminhos.

Há outro fator que também favorece a emergência desta “função empreendedora”. Não ser subordinado a nenhum cargo, em uma grande empresa, não é mais um grande problema para o trabalhador brasileiro. Embora pareça uma oportunidade para minorias, o empreendedorismo surge em um momento extremamente democrático, quando qualquer um, independente do nível de formação, idade ou classe social, pode ser um empresário bem-sucedido. O que antes era inimaginável, tornou-se muito mais acessível com o acesso rápido e barato para a abertura de uma empresa.

O que determina o sucesso financeiro de uma nova empresa não é o perfil do seu dono, mas a qualidade e a necessidade pública dos seus serviços. Cada vez mais os jovens têm se dedicado a desenvolver soluções simples, com base na tecnologia, para tornar a vida das antigas e das próximas gerações mais fácil e mais rápida.

Apesar de todo contexto aqui descrito, a pergunta do título ainda não foi respondida. O fato é que, por mais que o mercado corra atrás da ‘prescrição’ para encontrar esse profissional, ele nunca irá encontrar. O empreendedorismo, assim como qualquer outra função adquirida por um trabalhador, diz sobre sua experiência subjetiva. Para alguns é status. Para outros, forma de sobrevivência, apenas. Tem gente que acha que é um cartão de visitas para se apresentar a novas pessoas. Tem gente que só continua o negócio do pai, sem nem saber porque está ali. Uns tem orgulho. Outros tem vergonha. Algumas pessoas, sem saber o que é, apenas denominam: “olha ali aquele empreendedor”. Ano passado era um objeto de cobiça. Este ano já virou ‘a única saída’ para muitas pessoas que ficaram desempregadas.

“Eu sou empreendedor”. Já imaginou a quantidade de significados e significantes que essa palavra carrega? No mundo capitalista que vivemos, somos trabalhadores capazes de consumir, antes mesmo de sermos seres humanos.  A pergunta não é ‘seu nome e seu cargo’ e é por isso que almejamos tanto ter algum. O empreendedorismo passou a ser, então,  uma porta de acesso a essa resposta que é central na vida do sujeito, gostando ele ou não de assumir esse ‘posto’.

Eu realmente me questiono como fazem os recrutadores quando precisam conhecer esses perfis empreendedores. Será que eles sabem o que isso significa para o outro?

Portanto, antes de mais nada, você pode saber muito bem o que é ser empreendedor para você, mas para mim, você não tem a menor ideia. O que importa, antes de qualquer denominação, é o seu real desejo de estar ali. O quanto esse cargo diz sobre a sua subjetividade? Questione-se. Faça perguntas a si mesmo. O que você espera com isso? E se tiver oportunidade, faça escolhas. Quem vamos ser daqui a vinte anos não é o cargo que vai dizer. É a vida que irá nos cobrar sobre o que vivemos ou que deixamos de viver…




Cínthia Demaria

Cínthia Demaria

Jornalista, psicóloga e co-fundadora da empresa de marketing digital Tea With Me

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