O sabor da vida

Katsushika Hokusai, pintor japonês, escreveu em uma de suas obras o que a vida lhe ensinou em relação à sua arte. Fala de si e de seus sonhos. Assim ele se expressa: “Desde os seis anos de idade tenho a mania de desenhar a forma das coisas. Quando estava com 50 anos produzi um número razoável de desenhos, mas nada do que fiz até os 60 anos é realmente digno de menção. Aos 73 anos de idade entendi algo sobre a estrutura das aves, animais, insetos, peixes e da natureza vital das plantas e árvores. Aos 80 deverei ter já feito algum progresso. Aos 90 deverei ter penetrado ainda mais no sentido das coisas. Aos 100 anos de idade deverei ter-me tornado realmente maravilhoso e aos 110 anos, cada ponto, cada linha que eu desenhe deverá possuir seguramente uma vida própria”.  

As palavras de Hokusai ainda ecoam com sua poesia e profundidade. Lembro-me de tê-las lido há muitos anos. Hoje resolvi revisitá-las e buscar nelas o mesmo sabor – a vontade de viver – que me despertaram.

Infelizmente, o pintor de “A grande onda de Nakagawa” não chegou aos 110 anos, mas viveu o suficiente para deixar lindas obras e belas mensagens. Esse foi o seu legado.

Quando releio o seu texto, penso na oportunidade que a vida nos dá para ressignificar o que fazemos. E mais do que isso: penso que o aprendizado nunca termina. Somos eternos aprendizes.

Não tenho dúvida de que cada fase tem a sua magia. Assim é na infância, na adolescência, na vida adulta e na velhice. As descobertas e os sentidos vão surgindo no decorrer dos anos, nas reflexões e interpretações das nossas experiências, o que faz com que a vida seja maravilhosa, cheia de encantos e mistérios.

Hoje temos discutido muito sobre os encontros e desencontros, e nos perguntamos sobre os motivos que levam determinadas pessoas a atentarem contra a própria vida. Certamente existem vários fatores implicados. Cada caso é um caso. E precisamos construir redes de ajuda.

Hokusai, na singeleza do seu texto, aponta-nos o caminho do reencontro com o sentido da existência, com a vontade de seguir adiante, chamando-nos a atenção para o olhar sensível diante da criação laboral e dos significados que surgem com o amadurecimento do olhar.

Tudo isso nos faz pensar nos mistérios da vida e na beleza do existir. Sem dúvida, cada dia traz o seu encanto. Aprendemos, superamos adversidades e seguimos adiante. A esperança e a superação dão um tom todo especial ao nosso cotidiano e nos motivam a perseguir o significado e o sentido daquilo que fazemos e somos.

Em tempos de desesperança e de baixa autoestima, a história de Hokusai chama a nossa atenção para o doce sabor da vida.

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

8 comentários em “O sabor da vida

  • 16 de junho de 2017 em 15:28
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    Excelente artigo, Prof. Aristides!

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  • 17 de junho de 2017 em 21:44
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    Adorei o texto… Muito especial, reflexivo e desperta nosso olhar para detalhes da vida. Continue com suas inspirações Aris. Bj grande

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  • 18 de junho de 2017 em 11:12
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    Gostei muito Tidinho. Cada dia é um aprendizado. As experiências que vivemos nos transformam com o tempo de forma que somos hoje fruto das nossas próprias experiências! Abraços

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  • 18 de junho de 2017 em 12:49
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    Olá Aris!! Muito bom o texto!! Nós ,apesar da vida ,a gente pode ser feliz na busca por nossos próprios sabores ,acredito que o sabor da vida dependem de quem tempera RSS,como disse Naomi kawase o sabor da vida e a delicadeza. Abraços.

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  • 19 de junho de 2017 em 14:12
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    Aris, parabéns pelo texto. Sua sensibilidade sempre tocando nossos corações e nos fazendo pensar!

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  • 19 de junho de 2017 em 20:50
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    A irreverência usada pelos fortes, para expressar as sensações e sentimentos, me atrae ao ponto de acreditar ser possível alcançá-la também um dia.
    Um gosto tremendo o contato com o irreverente Dr Aristides – meu médico! Meu modelo.

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  • 24 de junho de 2017 em 09:25
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    É isso mestre! Aproveitemos da melhor maneira o hoje para confeccionarmos a mais bela colcha de retalhos.
    Parabéns por incentivar boas reflexões.
    Abraços!

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  • 30 de agosto de 2017 em 16:17
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    Que bacana! Que essa ideias possam permanecer para sempre em nossas mentes para que nunca esqueçamos do nosso potencial completo.

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