O tapete

Está na sala, junto ao móvel da televisão.

Foi trazido do Marrocos, em uma das muitas viagens pelo mundo. Pesou na bagagem, mas um autêntico tapete marroquino vale o esforço.

Comprou em uma daquelas lojas para turistas e ainda se lembra da agilidade dos funcionários com suas túnicas brancas, carregando e abrindo tapetes de todos os tamanhos, um depois do outro, num desfile sem interrupção, até fechar um negócio. Aí, o comprador recebe os aplausos. Ela mesma foi aplaudida!

Passados mais de vinte anos, forçada a ficar em casa por um problema de saúde, pousou os olhos no tapete e voou. Na simetria quase perfeita, uma diferença mínima, sutileza para paciente observador: numa das metades, o ponto é um pouquinho – bem pouquinho – mais apertado, as formas ficaram ligeiramente mais arredondadas, os candelabros mais baixos. O que era quase imperceptível roubou a atenção.

O tapete ocupou a sala toda.  A imaginação voltou ao Marrocos, reencontrou homens e mulheres sentados no chão, rostos anônimos debruçados sobre a tapeçaria, histórias caladas procurando voz em fios e matizes.  

Um tapete pequeno… Terá sido feito por mais de uma pessoa? Talvez uma alta e esguia e a outra mais baixa e roliça. Na força da mão, um inconfessável desejo de assinatura, de identidade no trabalho conjunto, mensagem subliminar?

E se foi uma pessoa só, o que mudou a intensidade do ponto? Algum acontecimento, notícia boa ou ruim? Começou feliz e depois teve raiva, sentiu dor? Foi sofrimento que apertou a linha? Ou terá sido o contrário? O trabalho das mãos suavizando a turbulência da mente, do coração e aliviando o ponto… Formas mais leves para um quase sorriso?

Nunca tinha se dado conta da história que há nas coisas. Nunca tinha pensado que as coisas feitas têm passado, têm vida e alma emprestada pelas mãos. Nada é feito de nada. Tudo tem expressão. E fez sua trama com a trama do tapete.

Lembrou-se, então, de ter lido Sartre: “Um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver sua vida como se a narrasse”.

Narrar como tecer… Trabalho manual. Ponto a ponto, apertando e afrouxando palavras, trançando ideias e sentimentos.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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