Ombro doloroso

Assistir aos jogos de vôlei sempre é uma boa diversão, mas não entendia bem o porquê. Afinal, os lances não têm nada de novo e os atletas realizam sempre as mesmas jogadas defensivas e ofensivas. Os fundamentos são poucos se comparados com os do futebol. Também, não há nada que se possa igualar à peripécia de um jogador, quando passa a bola entre as pernas de um adversário e sai na cara do gol. Só agora, recentemente, entendi o motivo da minha admiração: o ombro.

A dor no ombro é uma queixa muito comum e não é uma exclusividade dos praticantes do voleibol. Nos fundamentos do vôlei, o jogador quase sempre trabalha com os braços em máxima abdução, que é o movimento de afastá-lo do corpo, e acima dos ombros o que causa lesões frequentes e dolorosas.

Para os mais vividos, assistir a um atleta sair do chão e realizar uma cortada ou um saque no alto é uma façanha notável. Nas atividades do dia a dia, por exemplo, limpar vidros, pintar paredes, dirigir um automóvel segurando o volante na sua parte superior, são esforços em que o braço trabalha estendido em abdução, o que pode levar a um quadro inflamatório no ombro.

Para facilitar o entendimento, no ombro, três extremidades ósseas se articulam: o úmero do braço, a omoplata e a clavícula do tórax. As inflamações no ombro têm origem nos tendões do bíceps (músculo do braço), no manguito rotador (constituído pelos tendões dos músculos supra-espinhal, infra-espinhal, redondo menor e subescapular), tecidos moles periarticulares ou bursas subacromial e subdeltóide,  cápsula articular e  ossos.

 As lesões de tendões são dolorosas somente durante o movimento. A tendinite biceptal desencadeia dor na região anterior do ombro durante a flexão ativa do cotovelo ou do ombro para frente. A lesão do manguito rotador causa dor mais difusa na abdução ativa do ombro, principalmente nos primeiros 90 graus.  A dor usualmente tem o seu foco sobre a face lateral do ombro e pode ser um problema durante o sono.

Essa tendinite é mais comumente provocada pelo uso excessivo do manguito rotador por pessoa não acostumada a atividades realizadas com os braços sobre a cabeça. A posição abduzida força o manguito entre a extremidade da omoplata ou acrômio e a cabeça do úmero resultando em lesão.  Nos casos de ruptura total do manguito rotador a abdução do ombro fica impossibilitada.

A cápsula da junção glenoumeral, que articula o úmero com a clavícula e a omoplata causa dor difusa no ombro irradiando para o braço, levando a limitação da abdução. As bursas subacromial e subdeltóide quando inflamadas, caracterizando a bursite, causam dor na lateral do ombro e difere das tendinites pelo dolorimento na palpação direta abaixo do acrômio.

A artrite da junção glenoumeral é comum e produz dor difusa irradiando para cima, sendo facilmente detectada no exame físico, pela presença de dolorimento na rotação passiva do ombro totalmente abduzido, mas pode ser confundido com o manguito rotador.  

A doença primária dos ossos pode resultar em dor no ombro.  A necrose avascular afeta também a cabeça do úmero e o diagnóstico é feito pela Ressonância Nuclear Magnética, sendo menos comum do que na cabeça do fêmur. 

O tratamento do ombro doloroso quase sempre fica limitado ao uso de antiinflamatórios, analgésicos e repouso da articulação. A abordagem cirúrgica fica reservada apenas aos casos de ruptura total do manguito rotador.

Muitos motoristas ficam sem entender o motivo de recidiva da dor no ombro e não percebem que mesmo uma pequena solicitação da articulação do ombro em abdução faz voltar a inflamação e a dor. Se, para melhorar a dor, o descanso da articulação é imprescindível na fase aguda, a fisioterapia – sempre orientada por profissional habilitado –, só se justifica depois de passado esse período crítico e com o objetivo de melhorar a força muscular. 


Foto: João Pires/Fotojump

Paulo Timóteo Fonseca

Paulo Timóteo Fonseca

Médico da Saúde da Família

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