Os dois pés de São Pedro no século XXI

Por Priscilla Fujiwara e Valerio Fabris

Fica no mesmo lugar da Broadway, com suas 40 companhias de teatro espalhadas no entorno do Times Square, em Nova York. Ou fica no mesmo lugar móvel e itinerante do Clube da Esquina, que começou no Edifício Levy, no centro de Belo Horizonte, onde Milton Nascimento diariamente se encontrava com o clã dos Borges – Márcio, Lô, Marilton, Telo etc. Depois, os Borges mudaram-se para o bairro de Santa Tereza, onde há muitas esquinas e nenhum clube.

Assim como o Clube da Esquina, o San Pedro Valley está instalado no espaço do imaginário. É o difuso amálgama da criação e das conexões colaborativas. São mais de 300 startups e empresas já consolidadas que se espalham pelo bairro de São Pedro e imediações. Portanto, não há um endereço, um prédio, sequer uma quadra.

Um valley que não é vale

Digamos que o San Pedro Valley tenha como referência geográfica o fato de estar situado em um bairro, em uma região. OK. Mas o bairro não é um vale, de jeito nenhum. É, sim, uma sucessão de sobe e desce, bem de acordo com o predominante ondulado topográfico de Belo Horizonte.

O apelido San Pedro Valley surgiu de uma brincadeira, coisa da rapaziada. Mateus Bicalho, co-fundador da Hotmart (uma plataforma de comercialização e distribuição de produtos digitais) é o autor da blague que virou marca.

Ele fez o gracejo com amigos: San Pedro Valley. Uma alusão ao Silicon Valley, na Califórnia, onde nasceram ou se desenvolveram empresas que conquistaram o mundo, como, entre outras, a Apple, o Google, o Facebook, a Hewlett-Packard, a Intel, a Microsoft.

A designação Silicon Valley refere-se, na verdade, ao Vale Santa Clara, na área sul da baía de San Francisco. É também um apelido. Porém, o Valley tem a ver com a geografia. Santa Clara é uma extensa planície, encaixada entre duas cadeias de montanhas, que correm em paralelo. Portanto, é um vale.

O espírito da livre iniciativa

O que importa mesmo é que o Vale do Silício resultou de um ambiente intensamente favorável ao desenvolvimento tecnológico e aos negócios. Ou seja: o avançadíssimo centro acadêmico da Stanford University, a baixa regulação estatal que vigora em todos os Estados Unidos, a excelente infraestrutura, e a inigualável facilidade de empreender.

A onda tecnológica da costa sul da baía sul de San Francisco remonta aos anos 1930, quando vários empreendedores começaram a desenhar a curva da contemporânea indústria digital. Entre eles, Bill Hewlett e David Packard, estudantes da Stanford University, em Palo Alto (cidade situada a 22 quilômetros de Santa Clara).

Bill e David fundaram a Hewlett Packard. No vasto rol dos pioneiros dos circuitos integrados do Vale do Silício houve até mesmo um físico que recebeu, em 1956, o Prêmio Nobel: William Schockley. Ele também era alpinista.

É o gosto pelo conhecimento, a vontade de empreender e o despojamento pessoal que tornam as relações mais soltas e informais, ensejando, no bairro São Pedro, um viveiro de pequenas empresas da inovação. Esse “cluster” espelha o que se passa no ambiente da inovação em Belo Horizonte e no interior do Estado.

Minas é, hoje, o segundo pólo nacional de empresas de biotecnologia, sendo superado apenas por São Paulo. Os mineiros dispõem, ainda, do arranjo produtivo do Vale da Eletrônica, em Santa Rita do Sapucaí. Em Belo Horizonte, realiza-se anualmente a maior feira de ciência, tecnologia e inovação da América Latina, a Finit. A região metropolitana da capital é considerada o maior cluster do bioempreendorismo brasileiro, destacando-se, por exemplo, na produção e exportação de válvulas cardíacas e lentes intraoculares.

As circunstâncias criaram o aglomerado de empresas de inovação no tal San Pedro Valley. Disponibilidade de imóveis mais modestos, e, por conseguinte, de melhores preços, opções de restaurantes baratos, o pronto acesso ao amplo comércio e aos variados serviços da Savassi – bares, cafés, livrarias e papelarias, barbeiros e cabeleireiros, engraxates, cinemas, lotéricas, chaveiros, agências bancárias, pontos de ônibus. E, sobretudo, quarteirões sem automóveis, no entorno da praça, e movimento de gente nas calçadas.

As cidades com essas características de vida ativa e diversificada são consideradas como os ambientes que mais estimulam a inovação. O fluxo de informações e as possibilidades de frequentes interações sociais são atributos altamente valiosos para as organizações flexíveis da era pós-industrial e, também, para a ambiência criativa nos arranjos flexíveis e self service, destituídos de rígidas hierarquias, das sociedades horizontalizadas do século XXI.

Priscilla Fujiwara

Priscilla Fujiwara

Jornalista, relações públicas e pesquisadora

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