Os relacionamentos em 2040

— “Que perfume delicioso é este que você está usando?”

— “Memories of Amazon Flowers.”

Roteiro

O que: diálogo entre Jahne e Carlos.  Namorados.

Cenário: Ela, brasileira. Ele, australiano. Ambos nos respectivos países.

Quando: 2040

Namorinho moderno aquele, dos dois pombinhos. Não se desgrudam de jeito nenhum, mesmo a 15,5 mil quilômetros de distância e com fusos horários completamente incongruentes. Entre dias e noites que não se encontram, eles conseguiram ajustar as agendas de cada um para conseguir viabilizar os encontros ao máximo.

“Bastou deixar de dividir a vida entre dias e noites. Oito horas de sono e 16 horas para relacionamento são suficientes para administrar”. Muito fácil para quem, aos 23 anos, com apoios tecnológicos inestimáveis, se adaptou à vida da quarta década do século 21. Praticamente ninguém se aventura a explorar o mundo externo fisicamente. O sol que castiga, as tempestades inesperadas e as tecnologias em todas as coisas fazem do mundo real, físico, um lugar à parte.

Na verdade, a casa é o mundo. Ela possibilita o acesso a tudo e a todos os recantos do planeta e às necessidades básicas do ser humano. Desde a maturidade da realidade virtual e da internet das coisas, sob a batuta de máquinas inteligentes, aulas dos cursos regulares, práticas de esporte, reuniões com (os poucos) amigos, convivência com (os poucos) familiares e, até mesmo, enterros podem ser acompanhados virtualmente.  Tudo se faz on line. Inclusive sexo, claro.

A realidade virtual, com a predominância da vertente holográfica, foi eleita patrimônio mundial em 2030. A tecnologia de um novo mundo. A grande força das transformações de comportamentos e mudanças dos relacionamentos. A matriz de um novo mundo, construído após o desenvolvimento dos componentes sensoriais.

Toques, cheiros, experimentações e viagens de todos os tipos, tudo é possível. Sentir o cheiro de alguém e poder tocá-lo, mesmo com quilômetros de distância, era algo que as gerações anteriores jamais imaginariam, com os seus preconceitos com relação às tecnologias. Diante de nossos olhos podemos não só ver e ouvir como também sentir o cheiro e o toque das pessoas.

Para que sexo físico, se o prazer experimentado com as versões virtuais são mais que suficientes? Aliás, muito mais que suficientes. São superiores. Com cabeça aberta o suficiente para entender as novas dimensões do prazer, propiciadas por hábitos sociais e pela tecnologia, não há o ciúme decorrente da exclusividade. Jovens têm duas versões de relacionamento: a humana e uma robótica. Elas interagem em relações mentais, sensuais e físicas. Por que não? São surubas sensoriais.

Em 2032, as prostitutas fizeram uma grande campanha para tentar convencer a população sobre as vantagens do sexo humano. “Explore as profundezas humanas” foi o tema da mobilização global. A “primeira profissão”, na definição dos antigos usuários do serviço de terceirização do sexo, sucumbiu diante dos prazeres oferecidos pela virtualidade e por “robôs sem preconceitos”, capazes de explorar todos, todos mesmos, os sentimentos e desejos (imaginariamente) escondidos das pessoas.

Programa de namoro

Carlos e Jahne se aproximaram com o auxílio inestimável da inteligência artificial. Os dois participaram de um programa global de descoberta de pares perfeitos, desenvolvido pela organização Human Robotização Global. Eles tiveram todos os traços comportamentais e físicos levantados pelos sistemas de monitoramento com o objetivo de viabilizar a aproximação.

Aliás, a sociedade já refletia, então, a dependência total dos algorítimos. Superando a inteligência humana, a consciência das máquinas tornou-se viável. Tudo, tudo mesmo, podia ser feito com a assessoria direta das máquinas de sabedoria. Elas podiam até mesmo monitorar e auxiliar os tímidos quando as conversas não avançavam nos encontros iniciais na rede. O chip individual de cada um fornecia as instruções: faça isso, fale aquilo. Elogie o avatar. Assim por diante.

Na realidade, as informações de 9 bilhões de pessoas do planeta transitam pelos bancos de dados globais. Em tempos de computação quântica é possível avaliar traços dos indivíduos, inclusive pelo DNA. Os resultados são incríveis. Carlos e Jahne pareciam, de verdade, concretizar a velha fantasia romântica de pessoas “feitas umas para as outras”. O amor romântico, enfim, venceu.

Carlos Teixeira

Carlos Teixeira

Jornalista e designer do futuro

Um comentário em “Os relacionamentos em 2040

  • 5 de junho de 2017 em 23:35
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    Carlos Teixeira, o relacionamento com máquinas parece um avanço quando exclui o elemento surpresa, a decepção, a cobrança… Não é por aí? Abraço.

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