Paris, déjà-vu

Admito que Paris é um tema bem comum e corriqueiro em colunas de viagens e outras afins, no entanto, cada um tem a sua versão. Esta é a minha.

Um dos autores que gosto muito, já tendo lido praticamente toda sua obra, é o Ernest Hemingway. Nos anos 20, Hemingway viveu em Paris por um bom tempo e, junto com outros artistas e escritores como Pablo Picasso, Scott Fitzgerard, James Joyce, Salvador Dali e Luis Buñel, participou da chamada Geração Perdida — termo inventado por Gertrude Stein para batizar o grupo de artistas que, nos anos finais da Primeira Guerra Mundial, encontraram na França um refúgio para suas manifestações criativas, discussões filosóficas e criações literárias.

Em 1964, foi lançado postumamente o livro “Paris é uma festa”, que traz as memórias parisienses de Hemingway e cobre o período de 1921 a 1926, quando ele lá morou.

Minha história com Paris e o universo francês vem de longa data, lembrando até o título daquele filme “Nunca te vi, sempre te amei”.

Já na minha adolescência e início da idade adulta, a proximidade com a cultura francesa vinha de várias formas: pelas HQs do Asterix, pelas aulas de História no colégio, pelas camisas Lacoste, pela fragrância dos perfumes, as belas canções e a culinária, pelos filmes do Godard e do Truffaut, pela beleza das atrizes Jacqueline Bisset e Catherine Deneuve, pelos cartões postais recebidos e relatos de quem já tinha estado lá, pelos livros de Balzac, Stendhal, Voltaire, Dumas, Júlio Verne, Saint-Exupéry e tantos outros. Isso sem falar nas aulas que frequentei na Aliança Francesa quando adolescente.

Nunca tinha estado lá, mesmo assim, de certa forma, já me considerava um habituée.

Lembro-me até de um projeto de fazer um mestrado na Sorbonne logo após minha formatura na faculdade — mas que foi logo abortado, porque assim que formei consegui um emprego. Paris, então, ficou pra próxima, só na ideia, mas jamais esquecida.

O tempo passou, a vida fluiu e, voilà, numa noite de junho de 2008, o sonho começou a se tornar realidade. Minha esposa e filhas me fizeram uma bela surpresa, mostrando uma montagem de um pequeno vídeo em que eu aparecia em vários cenários famosos de Paris. Achei que era alguma brincadeira, mas não: disseram que seria a minha próxima viagem, mostrando até os bilhetes aéreos. Aí, foi um momento emocionante de pura felicidade, a ficha caiu e começamos a planejar os preparativos dessa turnê.

Bom, então a minha primeira tarefa, dentre as providências para essa viagem, foi reler “Paris é uma Festa” e elaborar um Roteiro Hemingway, extraindo do livro tudo que achava interessante: nome de ruas e bairros, bares e restaurantes, livrarias, enfim, os locais em que o Ernest viveu e por onde flanou na cidade. Entre eles: rue Notre-Dame-des-Champs, 113 e Cardinal Lemoine, 74 (onde morou); restaurantes Closerie des Lilas e Les Deux Magots (que freqüentava); livraria Shakespeare and Company; rue de Fleurs, 27 (onde morou Gertrude Stein); rue L’Odéon; Bibliothèque Nationale; Jardin Du Luxembourg; Boulevard Saint-Germain; Place Du Panthéon e outros.

O dia da viagem chegou. Nesse mesmo mês de junho, embarcamos de São Paulo com destino a Paris — e eu com toda a minha expectativa de conhecer um lugar que há tempos habitava meu imaginário e os meus sonhos.

Nem é preciso dizer que foram momentos mágicos e inesquecíveis. Tudo corroborou para que fosse uma viagem perfeita, nenhum percalço de espécie alguma, tudo a nosso favor, a começar pelo tempo com céu azul e uma brisa suave.

Como todo turista, tínhamos uma agenda cheia todos os dias, que começava pela manhã e só terminava à noite. Como era bom acordar todo dia em Paris, sabendo o que viria pela frente! Além dos locais obrigatórios, como Torre Eiffel, Champs-Élysées, Museu do Louvre, Notre-Dame, Versalhes, Museu Rodin, margens e pontes do Sena etc., bom mesmo era flanar sem compromisso pela cidade, descobrindo praças, feiras, ruas, bairros, avenidas, aproveitando também para curtir meu Roteiro Hemingway.

Agora, na prática, me senti realmente um habituée.

No prefácio do livro “Paris é uma Festa”, está escrita a seguinte frase de Hemingway: “Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel”.

Nessa eu discordo de você, caro Ernest. Conhecendo Paris em qualquer idade, ela vai acompanhá-lo por toda a vida.

Guilherme Mauro

Guilherme Mauro

Profissional de Relações Públicas

Um comentário em “Paris, déjà-vu

  • 11 de agosto de 2017 em 19:32
    Permalink

    Paris é mesmo muito especial, !!! Bela crônica Guilherme !!!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *