Perfume

O ponto do ônibus estava vazio, no comecinho da manhã.

Só eu, sentada no canto do banco. Ele apareceu de repente. Desprezou todo o espaço livre, sentou-se a meio centímetro de mim e foi logo perguntando:

— Tá calor ou tá frio?

Fazia calor, mas o frio subiu pela espinha. Aprumei o corpo, respondi qualquer coisa entre dentes e me levantei.

Ele continuou sentado. Uns cinquenta e poucos anos, talvez. Roupa social surrada, cabelo emplastado, uma sacola de mão de onde foi tirando uma porção de coisas e pondo no banco, como se estivesse à procura de algo.

Fingi uma chamada no celular, dei alguns passos em direção à esquina, cada vez mais impaciente com o ônibus que não vinha.

Ele, no mesmo lugar. Vez ou outra, me olhava de lado. Acompanhava meus movimentos.

Eu também olhei em volta, em busca de companhia, ensaiando um possível pedido de socorro.

Na avenida movimentada, só os carros em velocidade.    

No passeio, ele, eu e o Medo.

De repente, de novo, ele se aproximou. Tinha um frasco na mão.

Chegou bem perto de mim e encarou meu olhar apavorado:

— Tchau, moça. Eu só sentei ali mesmo pra passar um perfume.

Deixou um rastro de lavanda barata no ar e seguiu sem olhar para trás.

Eu fiquei ali, parada, de pé, acompanhando a figura daquele homem simples sumir de vista.

Já sem medo… Só com vergonha.

 

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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