Pessoas diferentes, tratamentos diferentes

Nos serviços de saúde temos observado as diferentes respostas das pessoas às orientações e aos tratamentos instituídos, o que remete à antiga máxima que afirma que “cada caso é um caso” e reforça a visão de que cada pessoa é única e deve ter uma abordagem individualizada em relação ao seu tratamento de saúde. A sensibilidade e o cuidado para perceber as diferenças entre as pessoas e a peculiaridade de cada um nos dará a oportunidade de ajudar mais e com melhores resultados.  

A presença ou a sensação de estar doente nos deixa inseguros. Esperamos que o nosso sofrimento seja valorizado e que alguém nos acolha e se solidarize conosco. Michel Balint, médico e psicanalista, dizia que “toda doença é um veículo de um pedido de amor e de atenção”.

Quando admitimos que as pessoas são diferentes e que respondem de forma diversa aos tratamentos, percebemos a responsabilidade que temos ao prescrever e indicar medicamentos e intervenções. Isso não é só importante para os profissionais de saúde, mas para todas as pessoas – amigos, vizinhos, parentes, balconistas de farmácia, curandeiros, entre outros – que, em determinados momentos, sugerem medicamentos e “fórmulas mágicas”. Vale também para quem se automedica. O uso incorreto e inadequado dos medicamentos e de outros procedimentos pode trazer sofrimento para a pessoa, seus familiares e amigos.

Existem situações em que as respostas aos tratamentos são tão diferentes que precisamos ter muita sensibilidade para entender o que de fato está acontecendo. Lembro-me de uma senhora com diabetes e hipertensão arterial que, ao trazer os resultados dos seus exames durante a consulta, comentou: “doutor, gostaria da sua opinião. Não estou tendo boa resposta aos tratamentos que fiz. O que é bom para os outros, não funciona comigo. Acho que estou fora da curva.” Na verdade o seu desejo era de ter uma abordagem individualizada, o que é também um direito.

Sabemos da importância das pesquisas científicas, dos protocolos clínicos e das diretrizes, mas entendemos que é preciso considerar – sempre – a individualidade de cada ser humano ou o nosso esforço poderá ser em vão.

Normalmente, pela comodidade e/ou desconhecimento, somos levados a generalizações e desconhecemos a história, a cultura, os valores e as necessidades de cada pessoa. Valorizar as diferenças e particularidades e oferecer tratamentos individualizados nos parecem ser o melhor caminho. E o grande desafio.

Aristides José Vieira Carvalho

Aristides José Vieira Carvalho

Médico, mestre em medicina, especialista em clínica médica e em medicina de família e comunidade, professor do curso de medicina da FASEH e coordenador de Residência Multiprofissional da Atenção Básica/Saúde da Família da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte.

4 comentários em “Pessoas diferentes, tratamentos diferentes

  • 1 de dezembro de 2016 em 16:33
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    Muito bom texto! Parabéns! Tudo verdade, pessoas são únicas e precisam de um olhar individualizado.

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  • 4 de dezembro de 2016 em 17:27
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    Pessoas diferentes e atenção compartilhada. Paciente/médico/família.No meu ponto de vista é onde começa o tratamento diferente- individualizado.

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  • 5 de dezembro de 2016 em 19:54
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    “O melhor caminho: valorizar diferenças e tratamentos individualizados”. Concordo. E quando se valoriza diferenças é porque o lado humano aflorou na relação médico-paciente. É esse lado humano que muitas e muitas vezes fazem a grande diferença nos tratamentos. Pode parecer que meu comentário sai do contexto, mas o uso para afirmar que enxergar, valorizar e respeitar diferenças fazem parte do tratamento médico e do relacionamento humano e isso pode ser verificado por aqueles que tiveram a sorte, o prazer, a oportunidade de ser seu paciente, como eu o tive e atesto agora.
    Parabéns pelo texto, Dr. Aristides!

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  • 6 de dezembro de 2016 em 22:06
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    Não sou médico mas concordo, e acredito que a individualização das pessoas, que nada mais é do que a busca em conhecê-las um pouco mais, seja no campo da medicina ou em qualquer outro, é uma boa forma para tentarmos compreender as suas dificuldades, insatisfações e diferenças – ou mesmo a sua doença -, e, assim, tentar ajudá-las no que estiver ao nosso alcance.

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