Por que ignoramos nossa música se o mundo a ama?

“É claro que a música nos bares pode ser um atrativo maior para o Brasil”, diz o percussionista e compositor Túlio Araújo. Nascido em Passos, no interior mineiro, o artista afirma que até hoje a sua cidade está presa exclusivamente ao modelo das boates (dance clubs) dos anos 70 e 80. A onda dessas casas espalhou-se pelo país depois do sucesso do musical “Os embalos de sábado à noite”, estrelado por John Travolta. A TV Globo aproveitou aquele momento para colocar no ar, em 1977, a novela Dancin’Days. Na trilha sonora pontificava o hit Macho Man, do Village People.

Segundo o músico, os jovens querem viver as experiências do tempo de hoje. Um modelo muito contemporâneo, a seu ver, é o do Café com Letras, em Belo Horizonte, criado há 21 anos pelo empresário Bruno Golgher. Está convicto de que o simples fato de ser um café, e não um bar, torna-o duplamente favorável à presença da moçada. Lembra que Golgher já havia inaugurado o estabelecimento, em maio de 1996, com total abertura para os gays e negros, em uma época na qual o preconceito ainda estava disseminado.

Desde então, os garçons são universitários. À atmosfera da casa, em que se instalou o café, acrescentou-se a música ao vivo. O percussionista organizou um conjunto de choro, denominado “O Couro Acorda o Vento”, que lá se apresenta todos os sábados, das 18h às 20h. “Num desses sábados, um grupo de franceses estava em uma das mesas. Vieram nos cumprimentar, maravilhados com o que viram e ouviram”.

Ele considera que a “música dá um charme a mais” ao bar, café ou restaurante. Aponta como os gêneros adequados o jazz e o instrumental brasileiro, aí se destacando o choro. “A qualidade da nossa música é excepcional. É amada lá fora. Tem um público absurdo no exterior. É necessário que, aqui dentro, a gente exponha mais a nossa música de alta qualidade, especialmente nesses locais de encontro”.

Túlio Araújo edificou sua ponte profissional entre Nova York e Belo Horizonte. É considerado um dos artistas mais talentosos e empreendedores da atual vasta safra de músicos instrumentais de Minas Gerais.

Sua última permanência em Nova York estendeu-se por oito meses, entre maio e dezembro do ano passado. Apresentou-se em oito prestigiosos endereços da cidade. Por exemplo, no Mezzow e no Birdland, inaugurado em 1949. O nome desse “jazz club” foi dado em homenagem ao saxofonista Charlie Parker, cujo apelido era Bird. Voltará à ilha de Manhattan no segundo semestre deste ano para lançar seu novo CD, intitulado “Moundland”.

Os americanos têm, assim, a oportunidade de recorrentemente ver ouvir algo que lhes é surpreendentemente insólito: a musicalidade de um pandeiro jazzístico “made in Brazil”.


Texto originalmente publicado na revista Bares & Restaurantes, editada e distribuída pela Abrasel. (Foto: Pablo Bernardo)

Valerio Fabris

Valerio Fabris

Editor

Um comentário em “Por que ignoramos nossa música se o mundo a ama?

  • 31 de julho de 2017 em 18:33
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    Muito bem lembrado, Valério! Nossa música é a melhor do mundo mesmo. Pergunte aos japoneses, p. ex. Abçs à Klara tb.

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