Por trás daquelas árvores

Sabe aqueles lugares na cidade por onde você passa quase diariamente, mas sem prestar muita atenção no que vê?

Um belo dia, por algum motivo, aquela casa, aquele edifício ou aquela rua que até então era mera parte da paisagem do seu cotidiano lhe revela algo completamente inédito. E você se pergunta: como é que eu nunca havia reparado nisso?

Por 10 anos, tempo em que vivi no bairro Funcionários, caminhar pela Rua Santa Rita Durão, mais precisamente naquele pedacinho entre as ruas Paraíba e Pernambuco, era um hábito para lá de corriqueiro, fosse para ir ao trabalho, fosse para algum compromisso ou simplesmente para algum bar na região da Savassi. Por todo esse tempo, aquela passagem, apesar de bastante familiar, não significava para mim mais que um não-lugar.

mosteiro2Entre os componentes desse não-lugar, um muro sóbrio e uma alta porta de madeira protegida por uma grade de ferro irradiavam silêncio e tinham por muitas vezes apenas a companhia do ponto de ônibus. Era essa a imagem que eu percebia e guardava na mente do Mosteiro Santa Clara, onde as irmãs clarissas pobres – o ramo feminino da ordem franciscana – que vez por outra avistava pela vizinhança, vivem e cumprem sua missão na Terra. Para elas e os frequentadores das missas e adorações, um lugar em meio ao meu não-lugar.

Até que, numa recente visita a BH, eis que estou passando por ali e noto algo diferente se descortinando na paisagem dos velhos tempos. Era a fachada do mosteiro, agora mais evidente com a poda das árvores do passeio. Como pude nunca ter prestado atenção àquela construção, tão destoante das demais, tão azul e cinza, tão suave e simples… Injusto que sou, botei a culpa nas copas das coitadas das árvores.

Boa coisa são os telefones celulares de hoje, com câmera fotográfica e conexão com a internet, para registrar e compartilhar justamente esses momentos de (re)descoberta. E nessa onda atual de publicar fotografias em redes sociais, conterrâneos me causaram surpresa –  e até certo espanto –  ao me perguntarem do que se tratava aquela fachada e se ela está situada em BH mesmo. Gente que, como eu, também passou por ali em alguns ou em muitos momentos da vida, mas que ainda não havia sido pega de surpresa por obra do acaso. Pelo menos não por detrás das árvores daquele não-lugar.

Breno Lobato

Breno Lobato

Jornalista

2 comentários em “Por trás daquelas árvores

  • 7 de novembro de 2016 em 14:43
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    BRENO , obrigada pelo texto excelente que nos mostra uma cidade onde episódios como este nos comove e alerta para sermos mais observadores .Valorizando e registrando fatos de nosso cotidiano que transporta -nos para lugares mais interessantes e verdadeiros.
    Parabenizo-o por tão bela iniciativa!

    Abraços.

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  • 13 de novembro de 2016 em 19:01
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    Caminhar,escutar, enxergar com emoção, belo texto!
    Parabéns Breno!

    Resposta

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