Pretinhos básicos

Há coisas que se consagram pela eficiência, pela simplicidade e pela praticidade no uso cotidiano. Quase sempre na cor preta, certos objetos presentes no passado de quem passou dos 40 se eternizaram nos corações e parecem pedir para voltar a fazer parte da vida dos seus donos. O exemplo mais clássico é, para as mulheres, o tal tubinho preto, aquele vestidinho coringa que derruba a dúvida cruel diante do espelho, instantes antes de sair para o compromisso noturno.

Outro exemplo, agora para os homens, era o sapato preto 752 da Vulcabrás. Era o pretinho básico de todos nossos pés de garotos que estudavam no Colégio Padre Curvelo e, anos depois, no começo de nossas carreiras profissionais. Esse e seus equivalentes eram o calçado oficial para cerimônias. E para deixá-los bonitos e apropriados, graxa neles! Tinham de estar sempre limpos e brilhando.

Podíamos até levá-los ao engraxate, geralmente associado ao barbeiro, mas também tínhamos nosso próprio kit essencial formado por uma ou duas escovas de cerdas diferente e uma latinha de Nugget preta. Se fosse o caso, também tinha uma só para lustro, além da marrom para aplicar no couro desta cor. Tinha também aquele paninho para completar o serviço doméstico. Nossos primeiros ternos eram de um azul-marinho escuro quase preto. Tempos diferentes dos atuais, quando as coisas não são feitas para durar e brilhar.

Na sala de nossos lares também reinava outro pretinho básico, só que mais majestoso e pesadão. Era o telefone, uma coisa de outro mundo, bem diferente da banalidade das comunicações digitais de hoje. O peso e a sobriedade do único modelo de aparelho de telefonia fixa intrigam as novas gerações e se impõe nas coleções vintage. Aquela coisona preta estava presente em poucas casas e atendida por um grupo menor de dígitos. Na minha casa era só os atuais quatro números finais, depois ganhando o prefixo local 721, depois 371 , no caso curvelano. Fazia um barulhão na chamada e precisava ser limpo como um objeto de decoração. Era o tempo de discar para alguém e não ligar ou telefonar.

Poucos sabem hoje o que é colocar o dedo no disco do aparelho e ir selecionando a sequência entre zero e nove. No começo, ligações DDD precisavam de ajuda de telefonista. Na esquina de minha casa tinha também um posto telefônico, algo inimaginável hoje. A agência da companhia telefônica estatal, a Telemig, tinha umas cabines para onde íamos esperar a telefonista fazer a conexão e transferir para o aparelho lá. Em BH, íamos até a sede da companhia, na rua Rio de Janeiro, próximo da Praça Sete, para fazer o ritual de chamar para a família no interior. Ficha de orelhão não durava nada, ficava caindo à cada frase.

O começo da telefonia celular também foi marcado pelos pretinhos básicos. Nossos primeiros celulares nos anos 1990, aqueles tijolões analógicos que carregávamos na cintura com uma capa de couro atada ao cinto, eram quase sempre pretos. A opção única era quase sempre cinza. Lembro de ter deixado a bateria de meu primeiro aparelho carregando mais de 24 horas para acionar pela primeira vez. É legal lembrar também que os filmes de ficção científica dos anos 1970 e 1980 dormiram nesse ponto. Viam o mundo futuro, do século 21 em diante, sem a presença de celulares. Como estavam errados. Esse pretão básico deu muitos filhos.

 

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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