Que tipo de ser humano estamos formando nas escolas?

Se pudéssemos imaginar o talento das crianças que brincam, desenvolvendo habilidades motoras e intelectuais de negociação, de juízo de valor (de perder ou ganhar), de criatividade para jogar de forma diferente, jamais as obrigaria a se sentarem numa cadeira para tirar 10 em matemática o ano todo

De uns tempos pra cá, as oportunidades de estudar (felizmente) cresceram de forma considerável. Há poucos anos, o destino das crianças era dividido pela necessidade de trabalhar X oportunidade de estudar. Eram raras exceções que conseguiam conciliar as duas atividades até se graduarem em uma universidade. Hoje a realidade é diferente. As escolas buscam os alunos por meio de uma ampla oferta de cursos, que podem ser feitos presencialmente ou a distância, com formas de pagamento e preços diversos, atendendo a necessidade financeira e até de geolocalização do interessado em adquirir um diploma.

A ‘facilidade’ para concluir os estudos gera oportunidades e favorece o mercado acadêmico – com mais ofertas para professores e formação de mão de obra para diversas áreas do conhecimento. Por outro lado, o excesso de oferta também implica na ampliação da concorrência. Além da saturação do mercado, os anos em sala de aula são cada vez mais longos, porque para se destacar é necessário investir em cursos de especialização, pós graduação, e por aí vai…

Entretanto, a provocação que proponho com esse texto está além de uma análise do mercado que a educação no Brasil se tornou nas duas últimas décadas. A questão é: que seres humanos estamos formando? Será que com tantos cursos e possibilidade continuamos a reproduzir a mesma lógica de uns anos atrás?  Qual é a capacidade crítica que os formandos levam, hoje, com os seus diplomas de graduação?

A sensação é que mesmo as escolas primárias não estão preparadas para lidar com as tecnologias e as subjetividades dos alunos.  O padrão de ensino ainda é separatista pelos melhores e piores alunos e mal se vê a valorização da criatividade daqueles que estão “fora da caixa”.  São as disciplinas que ainda pautam o desempenho do aluno que vai formar, seja na escola ou em uma faculdade.

Se pudéssemos imaginar o talento daquelas crianças que brincam e desenvolvem habilidades motoras e intelectuais de negociação, juízo de valor (de perder ou ganhar), criatividade para jogar de forma diferente, dentre outras habilidades, a gente jamais as obrigaria a se sentarem numa cadeira para fazer uma prova de matemática e tirar 10 o ano todo…

Com o acesso à informação desenfreada, possibilitada pelas redes sociais e os meios digitais de informação, nos tornarmos experts em formar a opinião de nossos amigos e atacar aqueles que pensam diferente, mas pobre de nós, que mal sabemos o que é respeitar quem vê as minhas regras como antiquadas.

Somos tão enaltecidos para ‘sermos os melhores’ no desempenho científico que não temos tempo para pensar em que ser humano estamos nos transformando. E a lógica do desempenho separatista não é apenas da escola. Os pais cobram dos filhos o desempenho padrão. Se ele tem uma habilidade artística que não o qualificará na escola pelas notas, rapidamente a família e a sociedade tratam de “voltá-lo ao juízo”.

O que eu percebo, muitas vezes, é que a falta de qualificação não é da capacidade da mão de obra, mas de uma análise crítica do profissional e de uma coragem para transformar realidades. Estamos tão presos a padrões e regras do mercado (a começar pelas do nosso ensino), que mal questionamos a nossa cultura hierárquica de ‘não doutores’ que tem muito o que nos ensinar.

A sensação é que ainda estamos naquele clipe da banda Pink Floyd Another brick in the Wall, sendo apenas ‘mais um tijolo no muro’.

Cínthia Demaria

Cínthia Demaria

Jornalista, psicóloga e co-fundadora da empresa de marketing digital Tea With Me

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