Reclame filosófico

Certas frases que soltamos nas conversas de trabalho confirmam a nossa idade. Aquilo que pode soar estranho ou muito datado para colegas das novas gerações também evidencia referências ricas e saborosas que os profissionais quarentões carregam na mente e no coração. Entre essas lembranças estão os conceitos resumidos por simples slogans de comerciais de tevê dos anos 1970 e 1980.

A propaganda presenteou sem querer os analistas com motes para tecer profundas análises, algumas de elevada complexidade filosófica, que vão muito além da simples missão de ser a alma do negócio. Vamos relembrar? “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo de um bom cigarro?” Assim começa o texto do reclame do Vila Rica, de 1976, encenado pelo meio-campista Gérson, astro da seleção do tricampeonato mundial, que inspirou a conhecidíssima Lei de Gérson.

Essa síntese do tal jeitinho brasileiro e da supremacia do interesse particular sobre o coletivo, argumentos presentes em tantos ensaios de sociologia, é tão repetida por aqui quanto a Lei de Murphy, segundo a qual se algo pode dar errado, vai dar errado. O craque levou a fama de filósofo da malandragem nacional. Na peça publicitária, ele encerra a fala com um sorrisinho safado e a infeliz conclusão que faz parte do imaginário popular: “Gosto de levar vantagem em tudo. Certo?”

Encravado na cultura popular também ficou o dilema Tostines, que remete à propaganda do biscoito de mesmo nome: “Está sempre fresquinho porque vende mais ou vende mais porque está sempre fresquinho?” A relação entre causa e efeito na qual os dois elementos invertem de posição vem sendo usada até para descrever situações curiosas da economia, quando o efeito de uma distorção já se confunde com os fatores geradores dela.

Também nos anos 1980, outro anúncio televisivo serviu para descrever fenômenos econômicos. Ele apresentava um homem bebendo sua dose de vodca e um segundo, seu sósia sóbrio e alinhado, que ao final respondia ao primeiro: “Sou você amanhã”. A ideia era informar que o destilado era bom o bastante para evitar a ressaca. Os economistas brasileiros, contudo, logo passaram a chamar de “Efeito Orloff” os erros cometidos pela Argentina e, logo em seguida, repetidos no Brasil na política e no combate da hiperinflação. Propaganda é cultura.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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