Relato de uma aventura

Por Guilherme Mauro

Pra mim, viajar é um dos grandes prazeres da vida — sejam viagens mais curtas,em locais próximos, ou outras mais longas, para regiões distantes e afastadas. O importante é a sensação quase mágica, o bom estresse dos preparativos e a expectativa de conhecer, descobrir, explorar e vivenciar lugares onde você nunca esteve. Aliás, pode até ter estado, pela imaginação, por imagens e leituras, mas não ao vivo e em cores.

No entanto, sei também que o ato de viajar é um grande estorvo para muitas pessoas. Não têm interesse, não querem sair da zona de conforto e preferem ver o mundo pela TV ou pela internet. Respeito, mas não é o meu caso.

Já viajei um bocado por aí, muito no Brasil, na América do Sul e também um pouco na Europa. Entre essas viagens, relato uma que foi bem marcante.

Verão de 1974. Nas férias da faculdade, decidimos, eu e mais três amigos, realizar uma viajem de BH até o Peru, passando pela Bolívia, com grande parte a ser feita por meio de trem. Nos encontrávamos várias vezes para planejar essa verdadeira odisseia, tiramos passaporte, tomamos vacina, estipulamos o período do início e retorno, e ficamos aguardando quando nossos pais iriam liberar aquela “verba”, dentro das possibilidades de cada família.

La plata en manos — aliás, bem módica, mas tudo bem —, pela nossa vontade fomos em frente. Nessa época, eu tinha os cabelos bem longos, que depois iriam ficar bem curtos. Iniciamos o nosso périplo indo de trem de BH até o Rio, onde fizemos um pit-stop rápido. Então continuamos, sempre de trem, até São Paulo, depois Campo Grande e Corumbá no Mato Grosso, e, atravessando a fronteira, já em território boliviano, em Puerto Suárez. Aí então as coisas mudaram.

Em Puerto Suárez, todo mundo de mochila nas costas, pegamos o famoso “Trem da Morte”. Compramos bilhetes na categoria econômica,bancos de madeira, com destino a Santa Cruz de La Sierra. Esse trajeto é um verdadeiro laboratório pra quem lida na área de antropologia: nossos colegas de bordo eram de várias partes do mundo, além dos habitantes da região, ameríndios, mestiços e grupos nativos quíchuas e aimarás. A viagem durou cerca de 20 horas, com várias paradas pelo caminho, e nessas paradas eram vendidos vários tipos de comida, principalmente por Cholas — isso tudo pela janela do trem!

Andávamos pelo trem por todos os vagões, pra lá e pra cá, inclusive até no teto, mas o favorito era o vagão-restaurante. Lembro de ter jogado uma partida de xadrez com um australiano, muito hilária. Ninguém se entendia, mas a partida foi numa boa até o final.

Bom, ficamos e conhecemos Santa Cruz, e depois partimos em direção a Cochabamba. Pra economizar, alguém teve a brilhante ideia de irmos na carroceria aberta de um caminhão, cheio de habitantes locais. Foi o frio mais intenso que já senti na minha vida, com todo aquele vento soprando… que ideia!

Permanecemos em Cochabamba por um tempo e depois seguimos pra La Paz, dessa vez de ônibus. Tudo correu bem, apesar do ônibus em superlotação.

La Paz é uma cidade bem interessante, mas você tem que ir com calma, afinal, são 3.640 metros de altitude, então a gente fazia como os locais: bebíamos chá de folha de coca. Essa foi a primeira vez que vi neve, num passeio ao Monte Chacaltaya, que fica a cerca de 40 minutos do centro da cidade. Visitamos também, próximo a La Paz, o sítio arqueológico pré-colombiano Tiwanako, onde está localizada a mítica Porta do Sol, um dos mais impressionantes monumentos incaicos.

De La Paz, então, partimos com destino à cidade de Copacabana, que fica na fronteira com o Peru. Eis que acontece um episódio surreal e inacreditável. Não sei por que, tinha colocado minha mochila no bagageiro em cima do ônibus. Quando chegamos na rodoviária, cadê a mochila? Roubaram, é claro, com todas as minhas roupas. Fui na aduana, mas não adiantou nada. Fiquei só com a roupa do corpo, casaco e — ainda bem — com meu passaporte e algum dinheiro, que estavam numa cinta por dentro da minha calça. Pensem bem, no meio da viagem de ida! Mas tudo bem, fazer o quê? Não perdi o entusiasmo, então bola pra frente.

De Copacabana, deixando para trás o belo visual do Lago Titicaca, fomos para Puno e de lá para Cuzco.

Belíssima Cuzco, era o mais importante centro administrativo e cultural do Império Inca, com uma arquitetura de influência espanhola misturada com a Inca. Em Cuzco, onde ficamos uns dois dias, outro fato inusitado: um dos nossos colegas queria voltar, aí, como estávamos em grupo, voltamos todos, deixando de conhecer Machu Picchu, que ficava bem próximo. Uma grande pena. Tempos depois, tive a oportunidade de conhecê-la — mas essa é uma outra história…

Foram exatos 22 dias de viagem, ida e volta. Apesar dos percalços, uma viagem inesquecível. Ah, e por falar em meu cabelo comprido, já na volta a BH tive que me apresentar para servir o exército, pelo CPOR. Minhas longas madeixas foram reduzidas a máquina zero.


Guilherme Mauro é profissional de relações públicas

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