Rodapé urbano na pauta principal

Em 1961 a jornalista e ativista urbana Jane Jacobs, em seu livro “Morte e vida de grandes cidades”, apontava a falência dos princípios funcionalistas do urbanismo. Brasília (1957), exemplo de plano urbanístico inspirado nos preceitos estabelecidos pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM), adotou diretrizes da Carta de Atenas (1933), notadamente em relação à divisão da cidade em áreas funcionais, setorizando os diferentes usos.

Mesmo diante do esgotamento deste modelo urbanístico, reproduzimos no espaço urbano e regional regulações que favorecem esta separação, inclusive segregando as classes sociais. Contra este modelo, Jacobs defendia fortemente a diversidade como fator determinante para a vitalidade urbana. O objetivo era instalar uma nova discussão sobre os princípios do planejamento urbano a partir de uma percepção prática da vida cotidiana. Neste aspecto, a rua adquire importância singular para a efervescência urbana, econômica e para a qualidade de vida na cidade. Mas a rua é ao mesmo tempo causa e sintoma de diversos fatores.

A rua pode então ser entendida como uma espécie de resumo da cidade. Se a rua é aprazível, se o percurso oferece oportunidades de interação entre as pessoas, com a paisagem, cultura, troca de experiências, surpresas positivas e boa acessibilidade, costumamos reconhecê-la como um local agradável e interessante. Mas como “ativar” as ruas e espaços de convívio para que se transformem em lugares com esta vitalidade?

Recentemente aprendi o significado da palavra “plinth”. Em holandês significa rodapé, porém adaptado para a linguagem urbana pode ser entendido como o andar térreo de uma edificação. Segundo o livro “a cidade ao nível dos olhos – lições para os plinths”, o andar térreo pode ocupar somente 10% de um prédio, mas ele determina 90% da contribuição do prédio à experiência do entorno.

Ocorre que as cidades brasileiras têm sido construídas em completa negação da própria urbe. Explico: as construções se apresentam impermeáveis ao tecido urbano, se voltando inteiramente para o uso interno, numa nítida estratégia de se proteger dos perigos urbanos. E no mundo interior se desenvolvem shoppings, resorts, clubes, simulando em ambiente aparentemente seguro. Mas as funções cotidianas, em sua plenitude, demandam deslocamentos frequentes. E para interligar as diferentes funções neste emaranhado se estabelecem as ruas e avenidas, sem vida própria, mas frequentemente entupidas.

Mas transformar as ruas em verdadeiros lugares exige muito mais do que simplesmente estimular o comércio no andar térreo. O cotidiano urbano pode se transformar numa experiência agradável e enriquecedora. O trajeto pode sugerir novas oportunidades, interações, um roteiro prazeroso, a arte do caminho.

As principais funções urbanas – morar, trabalhar, ter acesso à cultura, lazer, serviços, educação, saúde – podem ser desempenhadas de forma positiva. Neste sentido, é desejável que ocorra forte interação entre a rua, o espaço público e o privado, numa analogia ao nó borromeano, conforme articulado por Lacan, formado por três círculos que se entrelaçam, formando, juntas, um nó. A cidade adquire, assim, dimensão também simbólica, imaginária e real. As ruas não precisam ser somente locais de passagem e circulação, podem se transformar em locais de permanência e até de experimentações urbanas.

As cidades têm experimentado diversas estratégias para reverter a desigualdade social, o crescimento desordenado, o comprometimento da qualidade de vida e o esgotamento de um modelo inviável. Afinal, mais de 85% da população brasileira vivem nas cidades e as transformações urbanas podem catalisar esta incrível capacidade de mudança, endereçando uma nova economia baseada nos princípios da sustentabilidade e na construção de lugares.


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Sergio Myssior

Sergio Myssior

Arquiteto e urbanista, comentarista da rádio CBN, colaborador da MYR Projetos e diretor de Sustentabilidade do SINAENCO/MG.

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