Roteiro dos odores

Se eu pudesse fechar bem os olhos e sentir apenas os cheiros que alguns lugares da infância exalavam, em determinadas horas ou circunstâncias, embarcaria numa inebriante viagem ao passado. Nesse roteiro de odores bons e ruins, percorreria de 10 a 15 quilômetros de ruas e avenidas asfaltadas ou calçadas de pedra, identificando pelo olfato a passagem pela porta de estabelecimentos comerciais. Um após o outro.

Nessa Curvelo dos anos 1970 e 1980 sondável unicamente pelo nariz, o sentido parceiro do paladar apontaria para locais de pura nostalgia. Saindo da região da atual rodoviária rumo ao centro, cruzaria a entrada da Torrefação Vera, revelada pelo constante cheirinho de café moído e torrado lançado ao ar pelas suas chaminés.

Andando um pouco mais, meus pés teleguiados pelos aromas parariam em frente ao alambique Correinha, responsável também pela aguardente de cana Maravilha do Século XX. Aquele galpão animado pelo engarrafamento de cachaças e pelo vai-vem de caminhões me lembraria tempo de progresso e de brindes ao luar do sertão.

Depois seria a vez de sorver o odor peculiar produzido pela fábrica de caçarolas Dornas, uma mistura de enxofre e fumaça de fogão de lenha. O perfume levado às calçadas pela indústria de farinha de ossos também não era dos melhores, perdendo em fedor apenas pela névoa da refinaria de álcool de mandioca, deflagrada pontual e diariamente às 18 horas.

Para mim, o melhor de tudo era mesmo quando se sobrepunha a tudo o onipresente cheiro de terra molhada, apagando a poeira e acelerando passos e corações, tão logo começava a chover sobre aquele pequeno município mineiro de tardes quentes e de velhas tradições esquecidas.

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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