Sabor e saudade

O cheiro do pão de queijo saindo do forno tomou conta do pequeno apartamento alugado em Portugal. Lisboa.

Minutos depois, recebi a foto com a mensagem: “Achei polvilho aqui! Poucos supermercados têm. Deu pra matar um pouquinho as saudades”.

Saudades acumuladas há meses, desde a partida, quando o Brasil e uma vida inteira ficaram na lembrança para tudo recomeçar lá longe.

Muito mais longe é o Japão. E de lá veio, certa vez, um pedido de ajuda:  “Alguém sabe que tipo de queijo pode substituir o canastra para fazer pão de queijo aqui?”. Ninguém soube e fiquei imaginando a saudade dando água na boca, nos olhos, até inundar o coração.

Em Londres, há alguns anos, na primeira lanchonete que vendeu pão de queijo tinha freguês que comprava a fornada inteira… e a ilusão de um café caseiro. Foi assim também na Rua 46, a “Rua dos Brasileiros”, em Nova York. Muitos antes da exportação do pão de queijo industrializado, o sabor de casa já era disputado em dólar.

Curiosa sintonia entre sabor e saudade. Comer uma coisa e saborear outra, intangível.  Degustar o que não é comível, enfim. Experimentar o que não tem receita, um paladar que não está no alimento, mas na memória, na imaginação.  

“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença”, escreveu Clarice Lispector. E se não há presença, então, tentamos saciar a fome com um signo, com o símbolo de um lastro familiar, capaz de nos colocar de novo no conforto do sabido, do vivido. Comemos para reencontrar nossa história, nossos afetos distantes ou perdidos. Menos para alimentar o corpo e mais para alimentar a alma.

Olho a foto do pão de queijo luso-brasileiro, imagino o casal amigo em volta da mesa no entardecer em Lisboa. Provo com eles o sabor da saudade. E me lembro da madeleine de Proust: “… quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, guardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação. ”

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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