Sabores vespertinos

Lá no miolo de Minas o povo cultivava uma cerimônia alternativa à do britânico chá das cinco. Uma hora mais cedo servíamos a chamada merenda na principal mesa da casa. Nas tardes quentes e fagueiras daqueles anos 70 e 80 a mãe (ou a empregada) convocava a meninada para comparecer ao desjejum vespertino. A gente vinha correndo para comer pãozinho francês, pão e biscoito de queijo, pão sovado, bolo de fubá, queijo branco, requeijão e geleia de mocotó.

Para completar a farta mesa à nossa espera com uma toalha xadrez estavam manteiga de sal em barra e outras delícias como bolinho de chuva e o enigmático biscoito de amoníaco, nas suas mais variadas formas. Todas essas iguarias eram regadas a leite de vaca tirada do saquinho e um café doce coado no pano minutos antes. Não existe ritual mais mineiro do que essa comilança entre o almoço e o jantar.

Aquele altar para a culinária do interior tinha xícaras de porcelana pintadas que fumegavam e inebriavam os convidados. Tinha ainda rendinhas a cobrir pequenos cestos de bambu, garrafas térmicas e utensílios plásticos comprados na bacia das almas. Sabor e saberes se misturavam para alimentar o corpo e a alma, para levar prazer ao paladar e para preservar tradições.

Quando queríamos continuar assistindo televisão, preparávamos um prato de doces e salgados retirados da mesa da merenda e o levávamos para a sala com um caneco na mão. Se as nossas aulas na escola eram no período da tarde, a hora do recreio da escola também era a da merenda. A diferença estava no cardápio, não menos saboroso e calórico, incluindo até prato de feijão tropeiro.

Nos fins de semana, o café da tarde podia ser reforçado com os deliciosos biscoitos champanhe, conhecidos em Portugal como palitos la reine. Eram únicos. Cobertos por açúcar cristal e de formato retangular com extremidades arredondadas, eles tinham cor levemente dourada e consistência suave, quase quebradiça, nos sabores limão ou natural.

Nos meus tempos de menino, comer biscoito champanhe era um luxo. Era algo para ser consumido em ocasiões especiais, além de servir de ingrediente básico para finas tortas doces. Comer um pacote dessa maravilha pura, sem refrigerante ou outra guarnição, parecia desperdício. Legal era mesmo mergulhá-la no copo de refrigerante do lanche de domingo.

As prateleiras de matinais dos supermercados reservavam ainda outros produtos sofisticados aos nossos olhos. O biscoitinho (queijinho) da Piraquê, que chamávamos de ovinhos, era o tira-gosto preferido. A margarina Claybon parecia ser feita sob medida para o biscoito água e sal (cream cracker). A propaganda dela com a garotinha gulosa é clássica (Nhaaaac!). Fora isso, havia as duas variedades de latas de achocolatados e uma de cereais. Está servido?

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

Um comentário em “Sabores vespertinos

  • 23 de março de 2017 em 08:21
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    Silvio, sou sua comteranea, mas acho que vc não me conhece. Tb não te conheço pessoalmente, pois há 40 anos vim para BH.
    Mas, as vezes , leio seus textos e gosto muito!

    Hj, lendo Sabores , .E emocionei, coisa que raramente acontece comigo…. E tive uma ideia : pq não reunimos os textos de escrevinhadores curvelanos em um livro, para guardar a memória de nossa terra ?

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