Senhores do tempo

O badalar do relógio de parede de Maria Amélia era o instante mais solene da minha vida. Menino de calças curtas, eu ouvia inerte o alerta de hora cheia daquela relíquia pendurada na sala de estar de nossa vizinha.

Aquele momento em meio a móveis antigos e objetos luxuosos era ainda testemunhado pelo olhar severo da fotografia do general Carneiro, avô da anfitriã. Após muito tiquetaquear em companhia de nossa visita, a máquina de contar tempo alardeava a sua presença quando o ponteiro grande dos minutos chegava à posição perpendicular.

Mais perto de minha casa lá em Curvelo, a pensão de dona Arminda exibia logo no primeiro cômodo o seu relógio carrilhão com algarismos romanos e grande pêndulo dourado. Para dar corda nele era preciso girar com cuidado uma manivela em cada um dos três pequenos orifícios na metade inferior da face. Não era qualquer um que sabia.

Para consagrar esses dias cadenciados pelas engrenagens de velhos cronômetros, a minha residência se situava entre dois templos católicos nos quais os sinos das suas torres principais repicavam recados. Os relógios da Matriz de Santo Antônio e da Basílica de São Geraldo jamais se atrasaram. Sobretudo às 18 horas, a hora da Ave Maria.

Ao longo dos anos segui admirando tais artefatos e os consertadores deles, classe profissional cada vez mais rara. Nos anos 70 e 80 de minha aldeia, o nosso relojoeiro oficial era Joaquim Manoel de Miranda, mais conhecido como Seu Nonô, dono da Ótica Diamantina.

Vindo de São João da Chapada, o velho mestre de habilidosas mãos começou a carreira na cidade em cima de uma bicicleta, como vendedor ambulante. Falecido em 2004, legou lojas e ofícios aos filhos.

Como ensina a expressão em latim grafada em muitos daqueles tradicionais relógios, hoje o tempo voa (tempus fugit) mais do que nunca. Ele voa e não volta mais para a caixa de onde saiu, como fazem os simpáticos cucos. 

 

Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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