Testemunha

contos

Marcelo Lúcio estava de costas. Não tinha como me ver. Nem sequer podia supor que alguém estava tão perto dele, a poucos metros de distância, a retina  marcada pela cena do estrangulamento. A gente não controla nada. A vida é um mistério profundo, insondável. Quem poderia dizer que uma terça-feira banal seria responsável por mudar minha vida para sempre? Dali para frente, a memória daquela sequência de imagens jamais sairia da minha cabeça. Nem mesmo no começo da velhice, quando meus pensamentos passaram a embaralhar-se, levando-me a confundir nomes, pessoas e lugares. Nem mesmo no começo do ano, quando os médicos detectaram as primeiras alucinações. Nem mesmo agora, quando sei que estou nas últimas, o mal me comendo por dentro, voraz, tirando-me a esperança de vencer mais um dezembro.

Voltei do trabalho apressado para tomar um bom banho, fazer uma refeição rápida e dormir. Lembro-me de chegar em casa exausto das doze horas de trabalho no jornal. Queria somente um chuveiro, um sanduíche, e cama. Sozinho no apartamento desde que Marli me abandonara definitivamente, abri a geladeira apreensivo, conhecendo – como conheço – meus dotes como dono de casa. Contemplei as prateleiras quase vazias, um vidro de azeitonas ao fundo, meia cebola, uma garrafa de vinho pela metade. Suspirei. No congelador, o mesmo cenário de desolação: um pote de sorvete com a data de validade vencida, e nada mais. De súbito, lembrei-me da antiga camaradagem com Marcelo Lúcio e Vaninha, sua esposa, minha contemporânea de colégio, amiga de tempos felizes. Mesmo faminto e açodado, ainda bati campainha duas ou três vezes, como manda a norma. A intenção era simples: pedir uma sopa em pó, um miojo que fosse, uma massa de pizza pronta para assar. Vaninha compreenderia o drama do colega deixado pela mulher. O som ligado no volume máximo encorajou-me a abrir a porta, seguindo o raciocínio de que não poderia, mesmo, ser ouvido. A maçaneta girou suave, e, para meu espanto, não opôs resistência. Entrei sem cerimônia na sala escura, tropeçando em algumas peças de roupa largadas pelo chão. O vozeirão de Tim Maia e o clima romântico da canção me fizeram pensar, num primeiro momento, que talvez estivesse interrompendo um momento de intimidade do casal. Uma luz amarela vinha do corredor. Escutei gemidos. Avancei sem pensar. Como pude?

Nunca me esqueço dos músculos retesados dos braços de Marcelo Lúcio, a coluna projetada para frente e para baixo, o torso nu, a bermuda azul marinho e os pés descalços, a concentração máxima no gesto extremo, as mãos fortes bem ajustadas ao pescoço da mulher. Por um segundo, julguei ter sido surpreendido. Não pelo homem. Mas por Vaninha, os olhos esbugalhados, as veias saltando do pescoço, aquele sorriso, o corpo entregue ao companheiro fiel, marido de vinte anos, parceiro de um casamento exemplar. Ainda demorei alguns segundos para raciocinar sobre o que fazer. Consegui deixar o quarto sem ser percebido, Tim Maia ressoando nos meus ouvidos: ‘Você é algo assim/é tudo pra mim/ é como eu sonhava, baby’…




Rogério Faria Tavares

Rogério Faria Tavares

Mestre em Direito pela UFMG e jornalista. Membro da Academia Mineira de Letras e do Pen Clube do Brasil, é cronista do Diário do Comércio. Casado com Sabrina e pai de Carlos e Gabriela, reside em Belo Horizonte, MG, cidade em que nasceu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *