Um dia na vida de Alberto Sampaio


MADRUGADA: Insone, levanto-me da cama num pulo. Não tenho fome, mas preciso comer para me distrair. Alessandra dorme profundamente. Chegou em casa exausta, tomou um banho rápido, engoliu a porção noturna da dieta prescrita pela doutora Vânia e avisou-me que estava se recolhendo. Já na cozinha, abro a geladeira e dela retiro o pote de geleia, o queijo mais amarelo que encontro, o vidro de maionese e algumas rodelas de tomate empilhadas em um potinho fechado a vácuo. Sobre um prato fundo, posto duas fatias de pão de forma e começo a montar um sanduíche improvável, misturando doce e salgado. Lembro-me de palmitos e azeitonas, incluindo-os, a tempo, na bagunça que se espalha sob minha vista. Onde está o ketchup? Sento-me na frente da televisão com a bomba nas mãos.

Olho ao redor. Vejo a bolsa de Alessandra displicentemente largada sobre um móvel da sala. Tenho vontade de abri-la. Quero vasculhar o que ela contém. E se encontrar algo que a incrimine, que denuncie alguma possível deslealdade? Não sei se sentiria dor, ou tristeza. Raiva, talvez. Alessandra é minha esposa, tem deveres a cumprir. Os goles da coca cola me ajudam a empurrar a comida para dentro. Zapeio, o controle remoto sobre o colo. Nenhum programa me agrada. Fico por uns instantes diante de um filme erótico. Logo mudo para o canal de notícias: atentado a bomba fere trinta e cinco e mata sete pessoas no Oriente Médio, a bolsa de Nova Iorque cai tantos pontos, a atriz fulana de tal passa bem depois da terceira cirurgia plástica. O pornô mostra a relação entre uma japonesa, uma loura, uma negra e quatro homens de meia idade. A reprise de uma antiga novela dos anos oitenta me permite rever as artistas com que me acostumei na adolescência: Maitê Proença, Glória Pires, Malu Mader. O tempo passou muito rápido, sem que eu tivesse como detê-lo. Levanto-me do sofá num pulo, as mãos sujas de ketchup e maionese. Onde estão os guardanapos desta casa?

A bolsa de Alessandra continua me encarando fixamente, pedindo para ser aberta. Lavo as mãos com detergente na pia da cozinha. A televisão, agora, está sintonizada num jogo de tênis disputado em alguma parte do Norte da Europa. Sobre a mesa da sala, encaro as contas a pagar: a mensalidade do clube, o condomínio, o seguro dos carros, os planos de saúde, a renovação da assinatura do jornal e das duas revistas a que Alessandra é sempre fiel. De súbito, lembro-me que preciso acordar cedo para atender a um cliente que irá ao escritório às nove da manhã. Continuo insone. Abandono a ideia de remexer nas coisas de minha mulher.

Abro o armário de remédios. Alessandra é meticulosa. Separa as caixas por modo de apresentação (líquido, comprimidos ou cápsulas) e data de validade. São cinco estantes repletas de todo tipo de medicamento. É muito útil ter essas coisas em casa, diz minha mulher, hipocondríaca. Procuro o que me ajuda a pegar no sono. Como já desconfiava, está escondido. Alessandra tem medo de que eu também me vicie nele. Por um segundo, tenho ganas de acordá-la, para que me informe onde estão. Chego a entrar no quarto, decidido. Minha mulher continua a dormir profundamente. Compassivo, desisto.

Vou até a varanda. A um canto, a churrasqueira que nunca foi utilizada. Para que comprei esse apartamento? Tem piscina, sauna, playground, isso e aquilo. Olho a cidade escura. No fundo, ela não dorme. Finge que dorme. Ela não pode dormir porque não sabe, de verdade, o que é dormir. Assim como eu, que vivo sempre tenso, agitado, vagando de compromisso em compromisso, como um zumbi. Suspiro. Olho os ponteiros do relógio da sala. Marcam quatro e quarenta da manhã. Em duas horas e vinte estarei de pé, o banho tomado, o café consumido, pronto para mais um dia de trabalho e frustrações.

Tomo outro banho. Deixo a água morna amolecer a mente, na esperança de livrar o corpo da insônia. No espelho, constato que continuo bem acima do peso recomendado pelo meu cardiologista. Preciso dar um jeito nisso, fazer algum esporte, nem que seja uma caminhada diária, de quarenta minutos pelo menos, na praça do bairro ou na pista de cooper da academia. Viro-me de lado: a curva da barriga se acentua. Respiro fundo. Tento me lembrar se já comprei o par de tênis indicado pelo personal trainer de Alessandra. São quase cinco horas da manhã.

MANHÃ: Alessandra mantém o péssimo hábito de tomar o café da manhã com a televisão ligada na Bloomberg. Acho simplesmente ridículo. Minha mulher diz que isso faz parte do trabalho dela. Tolero, resignado, a sucessão de locutores compenetrados derramando um inglês frenético nos meus ouvidos. Alessandra já está vestida e maquiada. Tem um appointment com um grupo de investidores às oito. Vai explicar as estratégias que a corretora está defendendo para esse momento de crise econômica. Minha mulher tem convicção plena no que faz e no que fala. Pobre Alessandra.

A menina que conheci ainda adolescente, no colégio, continua atraente, o corpo em forma, as curvas apetitosas. A mentalidade, porém, em algum momento, se turvou. Talvez pela força das circunstâncias, talvez pelo medo do futuro, pelas inseguranças emocionais. Não sei dizer direito. O fato é que a minha mulher tem uma relação enferma com dinheiro. Quer ganhar muito, sempre mais, tem horror à dificuldade financeira, à mediania, a desejar algo e não poder comprar. Alessandra adora comprar coisas. Só uma coisa na vida, porém, não conseguiu comprar.

Nos primeiros quatro anos de casamento, até que tentamos. Depois, Alessandra não quis mais, parando de fazer os tratamentos que vínhamos fazendo. Sei que ela sofreu um pouco por causa disso. Mas tenho a certeza de que eu sofri mais. Sempre sonhei com pelo menos um casal. A vida ficaria, com certeza, pelo menos um pouco feliz. Faria algum sentido. Não sei mais o que faço com o dinheiro que ganho no escritório. Minha mulher e eu já viajamos pelo mundo todo. Conheço lugares exóticos, museus, castelos, palácios, igrejas, monumentos. Trocamos de carro todo ano. Temos casa na praia. Arremato obras de arte em leilões. Coleciono vinhos raros. Chega.

Um dia, desavisado, arrisquei-me a comentar com Alessandra que – quem sabe – poderíamos adotar uma criança. Ela me olhou como quem olha um alienígena, num misto de espanto e asco. Quer um pretinho correndo pela nossa casa, Alberto? Se esfregando nos nossos móveis, derrubando as coisas, empesteando o ar? Você ficou maluco. Sem reação, limitei-me a trocar de canal. Tirei a novela e voltei para o esporte. Campeonato espanhol: Barcelona versus Real Madri. Alessandra continuou a folhear a sua revista de decoração, projetando mentalmente a casa que acha que devemos construir em Tiradentes, antes que a Helena e o Maurício inaugurem a deles, como ela gosta de falar.

Saio para o escritório apressado. Já são quase oito e meia. Deixo o apartamento aos cuidados de Cida, a empregada que um dia ainda quero comer. É uma mulata gostosa, de cerca de trinta anos, os seios durinhos, empinados, a bundinha arrebitada, convidativa. Sou filho do meu pai, neto do meu avô. Não resisto a essa raça. Tranco a porta da cozinha, pego o elevador e aperto o botão da garagem. Encontro o doutor Hamilton, sempre reclamando do governo, da corrupção, dessa bandalheira etc. Respondo com evasivas monossilábicas a tudo o que o meu vizinho fala. Não sou louco de debater política ou valores morais com essa gente. Já bastam a família de Alessandra, os seus colegas de trabalho na corretora, os meus primos.

O trânsito não ajuda. Pelo rádio, fico sabendo que houve um terrível acidente na via principal, envolvendo quatro carros. O aplicativo me indica as rotas alternativas. O problema é que indica as mesmas rotas alternativas a todos os demais motoristas. Chego ao prédio do escritório depois de quarenta minutos, atrasado para o compromisso das nove horas. A sorte é que, obviamente, o cliente também se atrasou. Aline vai até a minha sala repassar a agenda do dia. No escritório há um ano e meio, hoje está como eu gosto: os cabelos presos em coque, a leve maquiagem sobre o rosto, o batom vermelho, as unhas vermelhas, a blusa de seda insinuando o sutiã de renda, a saia de brim colada ao corpo, o salto alto. Confirmo o nosso compromisso da hora do almoço. Aline reage com um discreto sorriso de canto de boca, os olhos fixos no i pad, sem coragem para encarar os meus. A campainha do escritório toca sem que tenhamos tempo de encerrar o assunto. Minha secretária se retira apressada: não pode deixar o cliente esperando do lado de fora. É profissional.

Hermínia da Matta Queiroz de Alencastro quer se separar do marido imediatamente. Afirma que ele transa com homens. Pergunto: como a senhora chegou a essa conclusão, dona Hermínia? Contratei um detetive particular. Veja essas fotos. Aqui está o Alencastro entrando nessa sauna asquerosa. Confira o horário. Aqui está ele saindo. Três horas depois. O senhor tem alguma dúvida? Calma, dona Hermínia. O seu casamento é sólido, tem quase trinta anos. Vamos pensar melhor.

TARDE: Aline tem o vigor dos dezenove anos. A pele é viçosa e fresca. O cheiro é de fruta nova, recém-colhida do pé. O perfume é leve, elegante. Gosto de tirar a roupa da minha secretária bem devagar, beijando ombros e nuca e queixo e colo. Aline sabe do que eu gosto e não nega fogo. Nesse dia, está a mesma de sempre: carinhosa e solícita, às vezes falando coisas desencontradas, que nem ouço direito, enquanto tomo, sob o chuveiro ruidoso, o banho necessário para recolocar o terno. Assim passamos muito bem a hora do almoço, no pequeno apartamento que mantenho a alguns quarteirões do escritório, aonde chegamos um quinze minutos depois do outro, rigorosamente. É o que acontece há praticamente um ano, umas duas, três vezes por semana. Sou um irresponsável.

A rotina recomeça às duas. Caio Pinheiro de Moura quer rever o valor da pensão que paga às duas primeiras mulheres. Peço os argumentos. Ele fala qualquer coisa insuficiente. Tento explicar ao cliente antigo que as coisas nem sempre são como queremos. Caio parece nervoso, como quem esconde algo. Aline traz café e água. Ofereço cigarros e charutos ao meu amigo, companheiro em noitadas e fins de semana. Caio toma o café de um gole. Pede álcool. Levanto-me e abro a porta do bar que mantenho em minha sala. Caio aponta a sua garrafa. Sirvo-lhe as doses de sempre. Acompanho-lhe.

Estou falindo, Alberto. Estou falindo. A crise me pegou. Não sei o que fazer. Sinceramente, não sei. O governo não está contratando. E você sabe que quase tudo o que eu construo é para o governo. Caio fala por mais meia hora sobre suas agruras financeiras. Como um santo confessor, ouço-o, paciente, assentindo com a cabeça de minuto em minuto, procurando demonstrar empatia e amizade. Uma lágrima escorre do rosto vincado de Caio. O relógio marca três da tarde. O próximo cliente já me espera. Caio voltará dentro de dois dias, para que, juntos, possamos traçar uma estratégia inteligente quanto às pensões.

NOITE: Estou sozinho no apartamento. Alessandra está em um business dinner com investidores chineses e volta tarde. O mais completo silêncio. Nem uma mosca subverte a ordem. Olho ao redor e contemplo as paredes repletas de obras de arte. No chão, tapetes caros, adquiridos em viagens de luxo pelo oriente, com Helena e Mauricio. Não há televisão nem lap top capaz de sossegar a minha alma. Por um segundo, penso em uísque, ou vodka. Seguro a onda, deixo a vontade passar. Os janelões mostram a cidade e o céu escuro. Tento mirar longe, na esperança de encontrar um ponto de paz, em que possa repousar. Conto as coberturas, os helipontos, as antenas de celular. Onde ficava mesmo a Serra do Curral? Meu telefone toca. Leio o número de Aline. Levo um susto. Ela sempre respeitou o combinado. Deve ser algo realmente importante. Do outro lado da linha, a menina vai direto ao ponto:

— Eu não te avisei antes porque o exame só ficou pronto às sete, amor.

Estremeço. Demoro um longo minuto até finalmente entender do que ela está falando. Minha secretária não espera:

— Deu positivo, Alberto. Deu positivo.

Rogério Faria Tavares

Rogério Faria Tavares

Mestre em Direito pela UFMG e jornalista. Membro da Academia Mineira de Letras e do Pen Clube do Brasil, é cronista do Diário do Comércio. Casado com Sabrina e pai de Carlos e Gabriela, reside em Belo Horizonte, MG, cidade em que nasceu.

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