Uma Cafeteria, Três Corações

Nos meus sonhos, certa casa vermelha em movimentada esquina da Praça da Savassi continua de portas abertas, vicejando como ponto preferido para encontrar amigos. A Cafeteria – conhecida como Três Corações – virou tradição em apenas nove anos de história, até o precoce fim, no último domingo do outubro de 2006. Seu súbito encerramento de atividades, há uma década, para dar lugar a uma loja de celulares, revelou o quanto eu estava agarrado a uma mesa de tampo de vidro a prensar grãos arábica.

Graças à fiel presença no local, quase diária e desde a inauguração, conheci donos, funcionários e dezenas de frequentadores. Apesar da crítica geral à demora no atendimento e à limitada carta de vinhos, minha memória não lista concorrentes afetivos àquele balcão de verve parisiense. Foram vários momentos felizes: bate-papos inesquecíveis, ideias anotadas em guardanapo e confidências exaladas pelo álcool.

A Três Corações era o elo entre o fim de expediente e o repouso, a saideira depois de outros points e o espresso pós-jantar, se ainda estivesse aberta. Era também o estúdio de meu talk-show, onde se revezavam como entrevistados desde convivas a colegas de trabalho e de happy-hour e até quem acabara de adentrar o recinto só pra comprar cigarro, ir ao banheiro ou fazer uma horinha. Foi nesse ponto de chegada aos que flanavam, savassiando à la Roberto Drummond, que me fiz anfitrião.

Com vista para a melhor boemia da capital, o estabelecimento era único com o burburinho do lado de dentro e o sereno do calçadão. Os sábados na Diogo de Vasconcelos eram de almoço frugal, debates molhados de Red, drinques cafeinados e leitura sem pressa de jornal. Até tentava marcar reunião em local diferente, mas os caminhos levavam ao “bar, doce bar”. A Cafeteria era meu Antonio’s (Tom e Vinícius), meu Le Deux Magots (Sartre e Simone) e meu Tortoni (Gardel e Borges).

Naquelas tardes, noites e comecinhos de madrugada se forjou a antologia de uma trindade – meu coração, o do interlocutor da vez e o da cafeteria. Ela começa com uma referência à conhecida marca de café que leva o nome da cidade natal do Rei Pelé e termina com um agradecimento aos que me serviam bebidas frias e quentes, panqueca enrolada, pão de queijo napolitano e o sanduba Kanadani, receita do cliente Riuiti.

Na minha despedida, em 1998, rumo a Floripa, ganhei do gerente Wilson xícara e pires da marca tricordiana, sob olhar de testemunhas. Fiquei tocado também em saber que perguntavam por mim na cafeteria depois que me mudei. Sempre que voltava a Belo Horizonte, passava lá, onde era “gente de casa”. Quando retornei para Minas, no fim de 2002, retomei os encontros acidentais e programados. Até hoje, o abraço da avenida Cristóvão Colombo com a rua Antônio de Albuquerque guarda para mim um viva à vida.




Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Jornalista

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