Uma história de livros

A luz debruçada sobre os livros. É como me lembro da primeira biblioteca da minha vida. Basculantes horizontais ocupavam quase toda a parede do fundo. O sol entrava e passeava primeiro sobre os volumes das estantes mais altas – altíssimas para os meus olhos de menina – para só depois esquentar a gente, no comecinho das manhãs.

A biblioteca ficava numa escola estadual na Vila dos Marmiteiros, região pobre e violenta na Capital dos anos 60. Um refúgio para a esperança. A merenda escolar era, quase sempre, a única refeição do dia para os alunos e dos professores vinham os gestos de afeto que costumavam faltar em casa.

Minha mãe era responsável pela biblioteca. Como já foi comum (será que ainda é?), nem sempre havia bibliotecárias no quadro da escola e a diretora percebeu nela habilidades para ocupar a função que ambas consideravam essencial para aquela comunidade.

Estive ali muitas vezes e, assim, os primeiros personagens entraram na minha história. Bonequinha Preta estava na festa dos meus quatro anos! Cada convidado ganhou um pirulito grande e redondo, com a carinha dela. Eu adorava a Bonequinha Preta e foi uma emoção quando muitos anos mais tarde entrevistei Alaíde Lisboa para uma reportagem na TV.

Na escola pública onde fiz o “primário”, uma porta aberta na hora do recreio me revelou a biblioteca, intrigante no barulho da tarde. Ali, descobri os livros de Laura Ingalls Wilder que li e reli várias vezes, acompanhando a viagem da família de pioneiros rumo ao Oeste americano. A cópia de uma das capas virou quadro na parede da minha casa: “Anos Felizes”.

Eduardo Galeano tem um texto sobre esses livros que fazem parte da história da gente: A função do Leitor (O Livro dos Abraços), que termina assim: “O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela”. Há muitos livros que “são meus”. Fazem parte do meu dia a dia, estão incorporados às minhas vivências e memórias, ao meu texto, ao meu vocabulário, atrelados à minha existência. Às vezes, pareço um papagaio repetindo frases, trechos que li.

Livros são espelhos em que nos vemos refletidos e, por isso, gostamos deles, disse Rubem Alves. Penso, então, que são espelhos gigantescos porque refletem o indivíduo e a humanidade. Com eles, descobrimos que não estamos sozinhos, nem tempo nem no espaço, com os nossos sonhos, conflitos, desejos, medos, angústias, alegrias… A literatura nos arranca do lugar sombrio da solidão e da individualidade para nos colocar no coração da humanidade. É redenção.

Na minha vida, os livros foram chegando, ocupando espaços vazios da alma e da casa, a me dizer sempre que tenho companhia. A minha pequena “biblioteca”, conforme o dia, tem a luz da memória de infância ou a penumbra da tarde no recreio da escola. Numa das paredes, há um quebra-cabeças emoldurado da Biblioteca de El Escorial, na Espanha. Linda, inesquecível! Às vezes, entro aqui só pra olhar. Pego um livro ao acaso, troco um ou outro de lugar, releio, anoto frases num caderninho e penso que é um privilégio ter uma biblioteca. Quer dizer, não apenas essa, com sua materialidade, que está aqui ao alcance dos olhos e das mãos. Mas, principalmente, a outra, que carrego dentro de mim, com livros que folheio, leio e releio mentalmente a todo instante. Meu acervo íntimo que começou a se formar naquelas duas primeiras bibliotecas escolares, onde a luz das manhãs e uma porta aberta indicaram caminhos.

Soraia Vasconcelos

Soraia Vasconcelos

Jornalista e escritora

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