Vergonha alheia: brasileiros no exterior

O mito de que somos um povo respeitador e cordial com os estrangeiros cai por terra quando se observa o comportamento de brasileiros em outros países. A má educação e a falta de consideração com a cultura e a língua alheias praticadas por boa parte de nossos compatriotas são latentes. Falamos alto, pedimos descontos e vantagens com naturalidade, ignoramos regras e códigos locais, queremos pagar em reais e ser compreendidos em nosso idioma, falado oficialmente em apenas nove países. Pare e repare se não é, de fato, muita vergonha alheia.

Sinto profundo constrangimento ao presenciar cenas lamentáveis protagonizadas por patrícios, que devem se considerar as pessoas mais importantes do mundo, não se esforçando para aprender ao menos um “bom dia”, “por favor” ou “obrigado” nas línguas dos países que visitam. Sinto pelos povos que nos recebem tão amistosamente como visitantes – e que daqui a pouco vão nos tolerar apenas por precisarem de nosso dinheiro.

Relato aqui algumas situações infelizes, testemunhadas durante recente viagem com minha esposa ao Uruguai, país encantador e de povo humilde e acolhedor, que nutre histórico apreço pelos brasileiros.

A primeira delas ocorreu logo no saguão de desembarque do aeroporto. Duas senhoras discutiam (em português, é claro) com o atendente da locadora de veículos por não aceitarem pagar a taxa local – algo de praxe na locação de carros em qualquer país e que só pode ser cobrado in loco. O atendente dizia não compreendê-las. Uma delas, em tom de desaforo, retrucou: “Pois eu estou entendendo o senhor perfeitamente”. Enquanto isso, um jovem casal tentava furar a fila. Mas Deus nos ajudou: o carro deles teria que ser retirado na cidade.

O Mercado del Puerto, em Montevidéu, reúne alguns dos melhores restaurantes para se saborear a carne e a parrillada uruguaia. Muitos brasileiros ávidos por conferir as iguarias geralmente não sabem nem procuram saber: em quase todo restaurante do país é cobrado o cubierto, uma taxa de serviço de mesa “disfarçada” pela cortesia de uma cesta de pães com manteiga e molhos. Comendo-a ou não, todos à mesa pagam o cubierto, que não se confunde com a propina (gorjeta) de 10% do valor da conta, como no Brasil.

Apreciávamos um belo entrecôte quando reparamos um casal de patrícios discutindo com o garçom. Só o rapaz havia comido os pãezinhos, e não se conformava em pagar os 70 pesos (“vultosos” R$7,80) de cubierto da moça. Não quero entrar no mérito da questão de consumo. Mas entendo que, se estamos em outro país, é de bom tom conhecer e respeitar as regras e costumes locais. Não nos cabe, enquanto turistas, usar nossos valores para questioná-las.

Nem Punta del Este, um dos mais badalados, sofisticados – e portanto caros – balneários das Américas, escapa de nossas proezas. Na praia, mais vergonha alheia. É a família que reclama do preço do aluguel do guarda-sol e das cadeiras, chama o atendente de “Seu” Fulano, trata-o como serviçal sem ao menos dizer-lhe um “gracias” e, ao pagar a conta do consumo, ainda pergunta, com o português de sempre: “Não vai ter aquele drink de cortesia, não?”. Ou a dupla de garotas que expõem suas vidas particulares e as fofocas da balada da noite anterior em conversas audíveis a um raio de pelo menos cinco guarda-sóis.

Chegaremos ao triste dia em que os brasileiros não serão mais bem-vindos em certos ambientes no exterior? Espero, sem muito otimismo, que não. Evidentemente, não estou fazendo uma generalização. Assim como também há gringos mal educados, é claro que existem brasileiros que se comportam adequadamente fora de nosso país.

Entendo, por outro lado, que há diversas explicações para a falta de postura de muitos compatriotas, como a baixa qualidade da educação formal, que não estimula o aprendizado de outras línguas; o histórico isolamento cultural do Brasil mesmo em relação aos países vizinhos; a ainda recente massificação do hábito de viajar para o exterior, contrastada pelo empobrecimento cultural da população etc.

Mas é preciso, desde já, que nós brasileiros aprendamos a entender que o mundo não vai se adaptar a nossos gostos e vontades; nós é que devemos aguçar os sentidos para a diversidade à nossa volta e nos ajustarmos a ela. Do contrário, seremos, cada vez mais, figuras malquistas em qualquer lugar do planeta.

 

Breno Lobato

Breno Lobato

Jornalista

Um comentário em “Vergonha alheia: brasileiros no exterior

  • 25 de março de 2017 em 19:09
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    Excelente análise Breno, parabéns!

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